mulher.

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domingo, 11 de novembro de 2012

Procura-se um amigo

Procura-se um amigo porque ninguém vive só.

Porque não é bom que o homem esteja só.

Jesus era amigo de Lazaro e familia, de João e outros mais.

Jesus é nosso melhor amigo mas ele quer, deseja que tenhamos mais amigos, que sejamos amigos uns dos outros. Amigos mais chegados que irmãos.


Procura-se um amigo, não é preciso que seja homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Deve saber compartilhar dores e alegrias, precisa saber falar e saber calar; e, sobretudo: saber ouvir. Tem que gostar de poesia, da madrugada, de música, do sol e da luz, criações de Deus. Deve ter um grande amor por alguém, ou então, sentir falta de não ter esse amor.

Procura-se um amigo que saiba guardar segredo, sem se sacrificar. Não é preciso ser de primeira mão, não é imprescindível ser de segunda; pode ter sido enganado, pode ter cometido faltas. Não é preciso que seja puro, nem que seja de todo impuro, pode ser pecador; mas... não deve ser vulgar. Tem que sentir os dias tristes e saber respeitá-los. Tem que saber renunciar em favor de alguém.

Procura-se um amigo que tenha um ideal, e no caso de não o ter, deve sentir o grande vácuo que isto deixa. Tem que ter ressonâncias humanas; Tem que ter vontade de integrar o mundo, e caso não tenha realizado, este não deverá ser um dos seus principais objetivos na vida, sendo que o seu principal objetivo seja: ser amigo. Deve sentir misericórdia das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve ter pena dos que tiveram e perderam coisas queridas. Deve gostar de crianças. Tem que ser Dom Quixote, sem, contudo desprezar Sancho.

Procura-se um amigo para passear, gostar dos mesmos gostos, ouvir música, ler a Bíblia. Um amigo que se entristeça com uma separação, que fique comovido com todo coração e deseja nossa volta para breve. Que não se comova quando chamado de amigo.

Procura-se um amigo para não enlouquecer; para se poder contar o que viu de belo e de triste durante o dia, dos sustos, das tristezas e das alegrias. Um amigo que não fale em políticas; que saiba conversar de coisas simples; do orvalho, das chuvas e das recordações da infância. À que se diga porque tal coisa é assim; e que se possa dizer coisas íntimas. Um amigo que não tenha medo de apontar um defeito, porque todos nós temos, e que quando o faça, saiba como fazê-lo.

Procura-se um amigo que não viva debruçado no passado, mas que relembre, em busca de boas e más memórias; que saiba dar esmolas a quem mereça, e, que quando der faça às escondidas, não para que os outros saibam, mas somente o Senhor Deus que está nos céus; que nos bata no ombro sorrindo ou chorando, mas nos chame de amigo.

Procura-se um amigo que nos diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo e para não fazê-lo sofrer.

Procura-se um amigo que creia em nós; que não seja irônico: que saiba nos defender de coração livre e com toda a franqueza quando formos atacados.

Procura-se um amigo para se ter consciência de que ainda se vive

Por favor, procura-se um amigo! Mas um amigo que, principalmente, saiba agradecer a Deus pelo que tem.  


Vinícius de Moraes


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Rute, uma devoção nascida da desolação

     Rute era uma jovem moabita especial, casada com um israelita, o qual, posteriormente, falecera de uma enfermidade na tropical e exuberante terra onde morava com os irmãos. No entanto, após viver durante dez anos como uma viúva pobre e desolada, ela decidiu recomeçar a vida longe da fadiga, dos problemas e da fome que prevaleciam em sua nação. Por esse motivo, Rute fez um voto à sogra, uma mulher triste e amargurada, a qual, com o coração partido e as mãos vazias, havia resolvido voltar à sua terra natal ]Bélem].
     O voto de Rute ficou conhecido como uma das mais belas declarações de devoção da historia.

Disse, porém, Rute: Não me instes para que te abandone, e deixe de seguir-te; porque aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus; Onde quer que morreres morrerei eu, e ali serei sepultada. Faça-me assim o SENHOR, e outro tanto, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti.
Rute 1:16-17
     O que se segue é um relato maravilhoso da meiga e corajosa jovem estrangeira que, para matar a fome colhe espigas no campo de um estranho senhor, por quem ela é encontrada, amada e cuidada - tornando-se, por fim, uma das ancestrais de Jesus (Mt 1.5).
      Os paralelos com a história da nossa salvação são óbvios e, em contrapartida, extraordinários: apesar do nosso passado, das circunstâncias pelas quais tenhamos passado, de tudo aquilo que possa ter dado errado e de toda a devastação que o pecado tenha causado em nossa alma, Deus pode fazer com que nos sintamos amados e protegidos sob Suas asas. Mais do que apenas nos proteger, Ele nos restaura a um lugar de honra e bênçãos, tornando-nos parte de Sua própria família.
     O avivamento, muitas vezes, brota de um período de desolação, desencadeado por um tipo de devoção que enterra, na areia, todos os antigos deuses e as velhas paixões, embarcando-nos em uma jornada de confiança e fé em direção a um novo lar e um novo futuro. O Senhor está buscando uma Igreja tão devotada quanto Rute - uma noiva sem rugas e manchas para o Seu Filho.

Bíblia  Despertamento Espiritual

Disse, porém, Rute: Não me instes para que te abandone, e deixe de seguir-te; porque aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus;

Onde quer que morreres morrerei eu, e ali serei sepultada. Faça-me assim o SENHOR, e outro tanto, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti.
Rute 1:16-17

Disse, porém, Rute: Não me instes para que te abandone, e deixe de seguir-te; porque aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus;

Onde quer que morreres morrerei eu, e ali serei sepultada. Faça-me assim o SENHOR, e outro tanto, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti.
Rute 1:16-17

quarta-feira, 11 de julho de 2012

terça-feira, 10 de julho de 2012

Pai, eu preciso do ESPÍRITO SANTO



Pai, eu preciso do Espírito Santo,
que me guarde enquanto durmo,
que acredite, quando eu duvido,
que ore, se eu não conseguir dizer nada.
Pai, eu preciso do Espírito Santo,
para ir, se eu teimar em ficar,
para ser minha esperança, se eu tiver medo,
para ser minha força quando não consigo lutar.
Para me levar
quando eu estiver cansado.
Pai, eu preciso do Espírito Santo,
de pé diante de Ti se eu me distanciar;
orando, se eu ficar sem palavras;
dando Graças quando me faltam palavras.
Pai, eu preciso do Espírito Santo,
porque  ele é o meu Consolador,
Porque ele me ajuda a falar com o Senhor,
Porque ele, através de Jesus,
me aproxima de Ti.
Deus, também amo o Senhor
Pelo seu amor inigualável,
agradeço porque tu nunca desistes de mim. 
Damaris



segunda-feira, 9 de julho de 2012

Eu e o meu SENHOR



 


Tudo o que eu sou,
seja sempre proveniente de ti, meu Deus.
Tudo o que sou,
seja sempre determinado por ti, meu Deus.
Tudo o que quero fazer e faço,
é servi-lo, meu Deus.
Tudo o que eu penso,
está em torno de ti, meu Deus.
Tudo o que eu sinto,
Que seja sempre amor e venha de ti, meu Deus.
Tudo o que digo,
que seja para te honrar, meu Deus.
Tudo que eu quero
deve conduzir ao SENHOR, meu Deus.
Que o meu presente
Seja o SENHOR, meu Deus.
Que o meu futuro
Esteja e seja o SENHOR, meu Deus.






quarta-feira, 4 de julho de 2012

Oração nos leva a Deus


Quanto mais silenciosa for a mente, mais poderosa, digna,profunda, reveladora e perfeita se tornará a oração.
Meister Eckhart

Com que freqüência me apresento a Deus, não com pedidos de consumidor, mas apenas com o desejo de ficar com Ele, entender o que Ele quer de Mim e não viceversa?
Philip Yancey

Ainda que minhas necessidades me levem a orar, é ao orar que me vejo face a face com minha maior necessidade: encontrar-me com Deus.
Philip Yancey

Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai.
Filipenses 4:8

Com o olhar para o Céu, Verás o rosto de Jesus, e as coisas da Terra vão diminuir, com a glória e graça de Sua luz.
Helen H. Lemmel


A oração nos leva à presença de Deus.
Salmo 4:4
Salmo 46:10
Salmo 63:5-6
Tiago 4:8


Meditar no Senhor gera fé, esperança e paz de espirito.
Salmo 16:8-9
Salmo 104:34
Isaías 26:3
Isaías 30:15
Filipenses 4:6-7


A oração nos permite ouvir o céu.
Jó 37:14
Jeremias 29:13
Jeremias 33:3
Mateus 6:6


Medite na Palavra de Deus.
Josué 1:8
Salmo 1:2
Salmo 119:15
Salmo 119:99
Salmo 119:148
1 Timóteo 4:15


Até Jesus precisava dedicar tempo à oração e meditação.
Marcos 1:35
Marcos 6:46
Lucas 5:16
Lucas 6:12

terça-feira, 29 de maio de 2012

5 Princípios para um casamento bem sucedido

 Vamos falar de casamento. Algo em seu casamento te preocupa? Precisa reacender a chama do seu relacionamento conjugal? Será que o relacionamento com seu marido caiu na rotina? Vamos ver 5 princípios básicos e comuns aos casamentos marcados pela satisfação mútua, alegria, paixão e compromisso a longo prazo.

1. COMUNICAÇÃO. Orem juntos, leia sobre o assunto, procure o conselho de uma pessoa mais velha, bem casada e de comunhão com Deus. Dê sempre prioridade ao seu casamento porque por ele seus corações estão unidos para toda a vida. Ouçam um ao outro, conversem e se apoiem mutuamente. Compreendam-se e coloquem-se um no lugar do outro, partilhem seus sentimentos, partilhem suas preocupações.

2. COMPANHIA
.Vocês juntos. Quanto tempo você fica com o seu cônjuge ... sozinho? É verdade, isso é mais fácil dizer do que fazer, mas é preciso lembrar-se de priorizar as coisas que são mais importantes para nós. Em seguida, fazê-las acontecer. Quando vocês têm tempo um para o outro, vocês demonstram o quanto és importante para o outro. Estes são muitas vezes os momentos mais poderosos e pungentes do nosso casamento.

3. ROMANCE. Esqueça as noções mais populares do romance, ainda mais as que custam dinheiro. Escrever uma carta de amor. Escolha flores de seu próprio jardim. Peça-lhe para reservar um tempo para sentar e assistir o vídeo do casamento, juntamente com um lanche gostoso. Ofereça-se para dar-lhe uma massagem nos ombros. Romance é encontrar formas criativas para "mostrar" o seu cônjuge que você o ama.

4. SEXO. O quê? Fazer amor. A intimidade física é uma parte importante de manter um casamento saudável, pois promove a união emocional, racional e espiritual. Sexo facilita a troca mais preciosa entre o homem e a mulher causando a união de nossos corpos, corações e mentes! Esteja aberto para ouvir e compartilhar necessidades sexuais do casal. Ficamos melhor quando sabemos onde podemos melhorar e aprimorar nossas habilidades.

5. HUMOR! Rir. Você está casada com seu melhor amigo! Aproveite. Não seja sempre tão séria. Aprenda olhar com bom humor para as ironias e esquisitices de suas vidas. Preocupem-se com o divertimento ou as férias do casal! O riso é como um remédio para o coração.

Ao longo da vida de um casamento, as pessoas crescem e mudam de formas inesperadas. Ideal é, casais crescer e mudar juntos de maneiras suficientes para manter o casamento viável e próspero. Os 5 princípios acima podem criar um ambiente que nos dá melhores oportunidades de sucesso no casamento.

domingo, 27 de maio de 2012

O Julgamento, a Condenação e a Crucificação de Jesus em Documentos Antigos I


                                             
                   A Altura da Cruz
     Podemos calcular essa altura considerando o que os soldados usaram para erguer a esponja embebida em vinagre até os lábios de Jesus. Mateus e Marcos falam em caniço (Mt 27.48; Mc 15.36). Esse termo em hebriaco é “hysso”, e quer dizer dardo. O dardo tem precisamente o aspecto de caniço. Esse “hyssos”, ou o “pilum” romano, tinha cerca de 90 cm de comprimento. Desta forma a esponja podia ser facilmente erguida a 2,50 metros. Portanto, a cruz em que Jesus foi crucificado era baixa.
Creio também que foi usada a “crux humilis” porque não havia razão para se fincar um tronco especial, mais alto, mesmo que fosse para se fazer zombaria ao “Rei dos Judeus”. Não havia tempo para isto, e os stipes (a parte vertical da cruz) estavam fincados permanentemente no Gólgota, local habitual de execuções. E esses stipes eram baixos, para facilitar o trabalho freqüente dos carrascos. Além de Jesus, condenado às pressas, deveriam ser executados naquele dia dois bandidos condenados por julgamento regular. Tratava-se, pois, de execuções regulares.
     Os stipes tinha quase dois metros de altura, o que permitia enganchar facilmente neles o patíbulo. Os pés podiam ser pregados com facilidade, a cerca de 50 cm do solo. A boca do crucificado ficava quase na mesma altura do patíbulo, e, portanto, a quase dois metros do chão. Certamente era mais cômodo colocar a esponja na ponta de um dardo para erguê-la a essa altura do que fazer o esforço para erguê-la com a mão.
     Um outro fato a ser levado em conta nesta questão é o golpe de lança. É certo que anatomicamente falando, o golpe foi dado obliquamente, mas quase horizontal. Ora, em minha hipótese de dois metros, o peito de Jesus estaria a cerca de 1,50 metro do solo. Um soldado de infantaria podia, pois, com facilidade, aplicar este golpe com o simples levantar dos braços. Com a cruz mais alta, isto seria simplesmente impossível. Ora, os soldados eram certamente legionários e, portanto, infantes. Eram comandados por um centurião, oficial de infantaria, oficial não montado. Ora, somente um soldado da cavalaria teria podido desferir o golpe quase na horizontal sobre um crucificado mais elevado.
     Podemos citar ainda o texto de Eusébio, que diz que a mártir Blandina “fôra exposta (na cruz) como pasto às feras”. Tratava-se, portanto, da cruz baixa, ordinária, a das arenas. “E pendente da cruz, assemelhava-se àquele que foi em benefício deles mesmos (os mártires) crucificado”. Iria esta semelhança até as dimensões da cruz? Não quero forçar o texto, mas bem me parece que o sugere.
     Porém, há quem se apegue a uma expressão usada por Jesus para tentar defender que ele foi crucificado em uma cruz alta: o verbo “hypsousthal – ser levantado”, que Jesus aplica a si mesmo três vezes no evangelho de João (Jo 3.14;8.28 e 12.32), referindo-se à sua crucificação. Na terceira vez Ele diz: “Mas eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim”. Porém, é evidente que uma cruz das dimensões da que nós estamos afirmando que foi utilizada na crucificaçõ de Jesus satisfaria também plenamente o sentido deste verbo.
             O Formato da Cruz
     Como teria sido a cruz de Jesus: em forma de T ou em forma de +? Muitos dos antigos escritores da Igreja acham que era em forma de +. Mas não encontramos na Patrologia nenhuma afirmação bastante clara neste sentido. O Pseudo Barnabé, Orígenes e Tertuliano afirmaram que a cruz era em forma de T. Tertuliano dizia que a passagem de Ezequiel em que o Senhor ordena que a fronte dos homens de Jerusalém fosse marcada com um sinal (Ez 9.4), esse sinal era um tau (o nome do T em grego), e isto era já uma prefiguração da cruz onde Jesus seria crucificado.
     Seria realmente interessante saber como os cristãos dos primeiros séculos imaginavam a cruz. Infelizmente, esta era, em todo o mundo romano, um objeto que inspirava um horror tão grande e acarretava tanta infâmia que ninguém ousava exibi-la, mesmo aos olhos dos fiéis. Toda a pregação apostólica era uma pregação alicerçada no triunfo da Ressurreição. Portanto, Jesus era representado triunfante, vivo diante da cruz. Somente na idade média é que se desenvolveria a imagem e o culto da Paixão, a idade mística da Compaixão.
     Nas catacumbas, a cruz é extremamente rara. Só foram encontradas umas vinte, e as escavações quase não aumentaram esse número. São cruzes nuas, sem corpos. Em lugar da cruz aparece com muito mais freqüência outros símbolos, como a âncora, que representa a esperança, e Jesus é nossa maior esperança! Aliás, a âncora está muitas vezes associada ao peixe, que geralmente a cobre. Peixe é em grego “ichthys”, cujas letras são as iniciais das palavras gregas correspondentes a: “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”. O peixe deitado por sobre a âncora, e algumas vezes sobre um tridente, é excelente imagem da cruz. A âncora evoca, por sua forma, claramente a cruz em T.
Portanto, ao longo dos séculos, a cruz tem sido representada sob as formas de T e de +. Como se vê, os indícios sobre a cruz de Jesus são bem raros e bastante imprecisos. Mas também aqui não vejo razão para que se tenha fabricado uma cruz especial para Ele. A cruz onde ele foi crucificado foi uma das cruzes comumente usadas no Gólgota. Seria uma cruz de altura média e em forma de T, como o eram normalmente as cruzes romanas, segundo o parecer dos arqueólogos.

                   Os Cravos
     Jesus teve os dois pés e as duas mãos cravados sobre a cruz. Este fato havia sido profetizado por Davi: “Pregaram-me as mãos e os pés” (Sl 22.16), e está também de acordo com a afirmação do próprio Salvador que disse aos apóstolos reunidos no Cenáculo, por ocasião de sua primeira aparição: “Vede minhas mãos e meus pés, que sou eu mesmo!” (Lc 24.39).
     O único problema a resolver está no número dos cravos: Foram três ou quatro? Ou, em outras palavras: os pés de Jesus foram pregados separadamente ou um sobre o outro, com o mesmo cravo? A arqueologia romana parece absolutamente muda sobre este ponto. Os antigos autores eclesiásticos se dividem entre as duas opiniões, mas infelizmente não apresentam os motivos de suas preferências.
     Cipriano, Ambrósio e Gregório de Tours falam de quatro cravos. Porém Nonius, no século IV, fala que Jesus foi crucificado “com os pés cruzados”. Gregório Nazianzeno escreve que Jesus foi “colocado no madeiro com três cravos”, e Boaventura acrescenta que “aqueles três cravos sustentavam todo o peso do corpo”.
     E é nisto que nós acreditamos, e a maioria das evidências confirma. Jesus teve os seus pés cravados na cruz um sobre o outro, e para isto foi utilizado um só prego (ou cravo).

     Jesus Estava Nu Sobre a Cruz?
     Está fora de dúvida que, antes de crucificarem Jesus, tiraram suas roupas, pois João nos informa que os soldados as dividiram entre si e lançaram sorte sobre sua túnica (João 19.23,24). Trata-se, pois, de saber se mantiveram algum pano cobrindo a sua nudez da cintura para baixo. Alguns estudiosos afirmam que Jesus estava na cruz completamente nu, porém baseiam geralmente sua opinião em razões de simbolismo tiradas do Antigo Testamento (por exemplo, Adão estava nu quando pecou, e Jesus deveria estar nu quando nos resgatou), ou se referem ao “costume romano”, sem apresentarem nenhuma outra prova histórica especial para o caso de Jesus.
     A esta opinião podemos opor um texto apócrifo tirado dos “Atos de Pilatos”, segundo o qual, depois de terem tirado as roupas de Jesus, teriam restituído a Ele um “lention”, palavra grega que quer dizer “pano”, uma espécie de tanga.
     Seria de admirar que os romanos que o haviam tornado a vestir após o açoitamento, e antes que Ele começasse a carregar a cruz – isto, diga-se de passagem, contrariando seus próprios costumes devassos a fim de respeitar a tradição nacional e as idéias judaicas de decência – após dividirem suas roupas a lançarem sorte sobre sua túnica, não lhe tivessem deixado pelo menos esse pano cobrindo sua nudez quando ele foi pregado na cruz.
     O costume judaico era o seguinte: “Chegando à distancia de quatro côvados do local da crucificação, despe-se o condenado e, se for um homem, ele deverá ser coberto pela frente; se for mulher, deverá ser coberta pela frente e pelas costas” (Tratado do Sinédrio, questão VI). Mas todas essas polêmicas ficam profundamente influenciada pelo “costume romano”. Entre eles, o crucificado deveria ficar nu? É o que afirma Artemídoro. Porém, o termo “estar nu” conforme o entendemos hoje (completamente despido de roupa) não tinha o mesmo significado entre os antigos. Todas as pessoas do tempo de Jesus usavam por debaixo das vestes, quaisquer que fossem, o que chamavam de “subligaculum”. Era uma espécie de calção, formado por uma faixa de pano que se enrolava em volta dos rins e das coxas, e que era usado permanentemente.
     Marcos conta (14.15) que após a prisão de Jesus, um jovem – provavelmente ele mesmo – seguiu o cortejo usando tão somente um “sindon” (um lençol?) sobre o corpo nu. O “sindon” era uma comprida peça de pano com que as pessoas envolviam o corpo por debaixo da túnica, e que era utilizada como roupa noturna. Marcos estava dormindo no Jardim das Oliveiras, e certamente despira sua túnica, mas com certeza conservara seu “subligaculum” por debaixo do “sindon”.
     Ora, quando os guardas o quiseram pegar, ele abandonou o “sindon” e “fugiu nu”. Parece, portanto, que esta nudez não eliminava o “subligaculum”.
     A questão é um tanto polêmica. Vejamos o que dela pensou a iconografia. Pode-se dizer que nenhum artista ousou representar a total nudez de Jesus na cruz. Nas primeiras representações artísticas importantes que temos, Jesus e os dois ladrões usam o “subligaculum”.
Após ter defendido, durante algum tempo, a tese de que Jesus foi crucificado vestido do “subligaculum”, não pude deixar de considerar a opinião de todos os antigos escritores da Igreja. Todos falam de “nudus, nudita, gymnos, gymnesthai – nu, nudez, nu, ser desnudado”. O grande pregador João Crisóstomo, por exemplo, escreve: “Ele foi conduzido nu à morte – epi to pathos egeto gymnos”, e “eistekeigymnos eis meso ton ochlon ekeinos – ficou nu no meio daquela multidão”. Encontrei também um texto de Efrem, o Sírio, (Sermão VI sobre a Semana Santa) em que ele diz que o Sol se escondeu diante da nudez de Jesus. Em outra passagem escreve ele: “A luz dos astros se obscureceu porque fora completamente despido Aquele que veste todas as coisas”. Eis aqui, finalmente, uma afirmação ainda mais conclusiva de João Crisóstomo. Ele diz que Jesus, antes de subir à cruz, despojou-se do velho homem tão facilmente como de suas vestimentas, e acrescenta: “Agora está ungido como os atletas que vão entrar no estádio” (Homilia sobre a Epístola aos Colossenses). Ora, toda escultura grega nos mostra esses atletas completamente nus.
 
Pierre Barbet

sábado, 26 de maio de 2012

O Julgamento, a Condenação e a Crucificação de Jesus em Documentos Antigos



                      A Condenação
Para Jesus ser condenado era necessário um motivo que caísse sob a legislação romana. Em Jerusalém, só Pilatos possuía o jus gladii, isto é, o direito de vida e de morte, e os judeus, se bem que amargamente, reconheciam isso. Os motivos de ódio dos sinedritas não podiam, portanto, ser apresentados perante um funcionário romano. É por isso que, logo de início, acusaram Jesus de levar o povo à revolta. Mas foi suficiente uma curta investigação, confirmada pela indiferença de Herodes, para destruir, no espírito de Pilatos, esse pretexto de acusação. Por isso ele repetiu três vezes: “Nada achei contra ele para condena-lo à morte” (Lc 23.22).
Os judeus então alegaram que Ele afirmava ser Filho de Deus, o que, segundo a lei judaica, implicava em pena de morte. Isto, porém, também não abalou o procurador. Antes, pelo contrário inquietou vagamente sua alma supersticiosa, pois para um pagão, “filho de Deus” é sinônimo de “herói”. É evidente que Pilatos fez todos os esforços para libertar aquele homem manifestamente inocente e que lhe impunha respeito.
Não foi senão após numerosos giros e tentativas que os judeus acabaram finalmente por encontrar o motivo que forçaria Pilatos a condená-lo: “Ele se fez rei, e se tu o libertares, não és amigo de César”. Astúcia verdadeiramente satânica, porque além de incluir um capítulo de acusação regular de bastante gravidade, a “rebelião contra César”, veio perturbar profundamente a inquietude egoísta de um pobre funcionário colonial, que temia desgostar o governo central e mesmo vir a ser incluído em tentativa subversiva contra o imperador.
Desse momento em diante, todas as intenções de benevolência, todos os cuidados de justiça, que eram motivo para muito se admirar em um bruto romano, tudo se volatilizou perante objeto de acusação tão grave e singularmente comprometedor. A partir desse momento, a condenação foi automática e a aplicação da lei exigiu a morte por crucificação: rebelião contra César.
O procurador vingar-se-á dos judeus escrevendo sobre o “títulus”: “Jesus nazareno, rei dos judeus”, e mantendo a inscrição, apesar de todas as reclamações. “O que escrevi, escrevi” (Jo 19.22), palavras que são a evidente expressão de seu ressentimento e mau humor. 

                         O Açoitamento
Trata-se agora de saber se esse chi­co­teamento foi aquele que todo condenado à morte recebia, ou se foi realizado como um suplício à parte. Mateus e Marcos não nos fornecem elementos para resolvermos esse problema, porque escreveram simplesmente: “Após ter mandado açoitar a Jesus, entregou-o para ser crucificado” (Mt 27.26; Mc 15.15). É um simples enunciado da sucessão dos acontecimentos, e era o que acontecia em todas as condenações à morte.
Já em Lucas, vemos que Pilatos repete duas vezes aos judeus: “Depois de castigá-lo, o soltarei” (Lc 22.16,22). Disto conclui-se que sua intenção de mandar chicotear Jesus era por que Pilatos considerava o chicoteamento uma punição em si mesma. Mas Lucas não deixa claro que Pilatos tenha realmente mandado chicotear Jesus. É só no evan­ge­lis­ta João, que sempre fazia questão de deixar tudo bem esclarecido, que encontramos a conclusão desse assunto: “Então Pilatos tomou a Jesus e mandou açoitá-lo” (João 19,1). Como se vê, o açoitamento veio antes da sentença de morte. Não era, portanto, a flagelação preparatória, legal. Mas o resultado não era diferente.

                  A Coroação de Espinhos
Já falamos sobre o costume de submeter o condenado a todas as espécies de zombarias e maus tratos. Com relação a Jesus, havia um detalhe que iria aguçar a perversidade dos carrascos: ele era acusado de ter-se declarado rei dos judeus, acusação esta que logo em seguida iria resultar em sua condenação à morte. É certo que tal título de realeza judaica devia parecer aos legionários do Império imensa palhaçada, e era natural que lhes acorresse logo a idéia de aproveitar a oportunidade para fazer deste título uma cruel zombaria. Daí a coroa de espinhos, a velha clâmide como manto de púrpura, e um caniço como cetro.
Filon nos descreve um outro exemplo (in Flaccum) deste profundo desprezo dos romanos pela realeza judaica. Poucos anos após a morte de Jesus, estando o rei Agripa de passagem por Alexandria, a população, que não gostava dele, se apoderou de um pobre coitado, e colocou-lhe na cabeça um fundo de cesta à maneira de diadema, envolveu-o com uma esteira, pôs-lhe na mão um caniço, deu-lhe guardas pessoais cheios de ironia, e cercou esse rei de honrarias ridículas. A palhaçada assim improvisada tinha a intenção manifesta de ser um insulto à realeza judaica de Agripa.
Tornaremos a examinar os detalhes da coroação de Jesus ao estudarmos as chagas que dela resultaram.

                    O Transporte da Cruz
Jesus, condenado por um romano a ser crucificado, só carregou, conforme a lei romana, o patíbulo e não a cruz inteira, como erradamente o representa a maior parte dos artistas.
Será que esse patíbulo estava amarrado com cordas aos dois braços estendidos de Jesus, como era o costume em Roma, ou Ele o levou livremente sobre os ombros? O episódio de Simão Cirineu parece indicar que Jesus estava conduzindo o patíbulo livremente, sem cordas. De acordo com os outros evangelistas, Jesus levou pessoalmente sua cruz.
Depois os soldados percebendo que Ele não conseguiria chegar dessa forma ao Calvário, obrigaram um homem de Cirene a carregar a haste horizontal, ou o patíbulo. Isto parece indicar, sem grande certeza, porém, que o patíbulo estava livre sobre seus ombros. Lucas diz que puseram a cruz sobre os ombros de Simão “para que ele a levasse atrás de Jesus” (Lc 23.26), o que quer dizer que Jesus caminhava na frente, conduzido pelos soldados, e Simão o seguia, carregando sozinho o patíbulo. Estamos bem longe, portanto, de alguns quadros em que Jesus aparece carregando imensa cruz, da qual Simão apenas ergue a extremidade inferior da haste vertical, atrás de Jesus. Isso não passa de pura imaginação de artista.
A fricção da trave resvalando sobre as costas, sempre que Jesus caía sob o peso da cruz, ia esfolando mais e mais uma região que já fora duramente castigada pelo açoite com pedacinhos de osso e rodelas de ferro nas pontas.
Jesus também não foi submetido ao costume romano segundo o qual os condenados caminhavam para o suplício completamente nus. “Depois de zombarem dele, despiram-lhe a púrpura, e o vestiram com suas próprias vestes: então o levaram para fora, a fim de o crucificarem” (Mc 15.20). Essa exceção é explicada facilmente pelo hábito que os romanos tinham de respeitar os costumes dos povos dominados por ele. Flávio Josefo comenta (Contra Ápiom): “Os romanos não forçam os povos submetidos a transgredirem as leis desses povos”.
Acrescentemos ainda que costumavam amarrar os braços do condenado ao patíbulo com o objetivo primordial de evitar toda e qualquer reação violenta deste, pois ele, já que havia sido condenado à morte, estava disposto a tudo, tornando-se, portanto, perigoso.
Quanto ao réu especial que era Jesus, os soldados logo perceberam que Ele era totalmente inofensivo, tanto por sua serena mansidão manifesta durante todo o processo, quanto pelo estado de fraqueza a que deveria estar reduzido após o tratamento a que fora submetido durante a flagelação. Para eles o único problema era o de conduzi-lo vivo até o Calvário.  
cont... 
 Pierre Barbet
              



sexta-feira, 25 de maio de 2012

A Crucificação em Documentos da Antigüidade


Antes de estudarmos todos os detalhes da crucificação de nosso Senhor Jesus Cristo, vejamos o que a arqueologia, a literatura e as artes antigas têm a nos ensinar sobre este tema.
Os gregos demonstravam verdadeiro pavor à crucificação, e por isso não a adotaram como forma de execução de seus criminosos. Ela só passou a fazer parte dos costumes gregos no tempo de Alexandre, o Grande, que a imitou dos persas. Foi praticada na Síria, sob os selêucidas, e no Egito sob o governo dos ptolomeus. Em Siracusa, cidade grega, Dionísio, o tirano, praticou-a inspirado pelos cartagineses.
Os romanos também a adotaram observando o exemplo dos cartagineses. Essa prática, que começou a ser usada em Roma como punição aos escravos, passou a ser aplicada também aos prisioneiros de guerra, aos desertores, aos ladrões, e sobretudo aos revoltosos vencidos. Tempos de­pois passou a ser muito explorada no país dos israelitas. Herodes, o Grande, mandou crucificar 2.000 judeus que se rebelaram contra ele, e durante o cerco de Jerusalém, em 70 d. C., os romanos chegaram a crucificar 500 judeus por dia, segundo testemunho do historiador judeu e um dos comandantes das tropas judaicas rebeladas, Flávio Josefo.
Em tempo de paz, a crucificação era primordialmente o suplício usado contra os escravos. São numerosos os autores romanos que dão testemunho disto, como Tito Lívio, Cícero, Tácito, e outros. As comédias de Plauto em que aparecem tantos escravos, estão cheias de alusões bem diretas ao que os escravos consideravam, sem ilusões, seu fim natural: “Meu pai, meu avô, meu bisavô, meu trisavô, terminaram sua carreira crucificados”.
No começo, a cruz estava reservada a revoltas coletivas, como a que foi liderada pelo gladiador Spartacus, da qual sabemos que, após sua repressão, 6.000 cruzes ocupadas com os corpos dos revoltosos foram erguidas como balizas na estrada de Cápua a Roma. Mais tarde, os donos de escravos receberam o direito de decidir sobre a vida e a morte destes, sem apelação. Os escravos eram considerados animais.
Se esta situação foi, no início, motivada pela fuga dos infelizes escravos ou por outra falta grave, em breve as mais leves razões acabaram por ser consideradas suficientes para crucificá-los. Lembremos que, de acordo com um antigo e detestável costume, quando um senhor era assassinado e não se conseguia descobrir o criminoso, todos os escravos da casa eram crucificados.
Os próprios cidadãos romanos podiam ser crucifi­ca­dos. O grande senador e príncipe dos oradores romanos Marcos Túlio Cícero censurou veementemente essa atrocidade. Toda uma série de textos mostra que os romanos também eram curcificados regularmente, porém se tratava em geral de cidadãos humildes, libertos ou provincianos. Os famosos ataques de Cícero contra essa prática pretendiam isentar definitivamente o cidadão romano desse suplício.

Instrumentos da Crucificação
Em geral, a cruz era formada por duas peças distintas. Uma das peças, a vertical, que ficava enterrada permanentemente como um poste fixo, era o stipes crucis – “o tronco da cruz”. A outra, a parte móvel que se fixava horizontalmente sobre a primeira, se chamava patibulum.

1.  O stipes crucis. Digamos em português: o tronco da cruz, porque “stipes” quer dizer tronco de árvore, estaca pontiaguda. Era a parte a que, primitivamente, se dava o nome de “cruz”. A “crux” (“cruz” em latim, “stauros” em grego), não é outra coisa senão uma estaca fixada verticalmente no chão. Alguns autores usaram as palavras “stauros” e “skolops” com o mesmo sentido, e empregaram o verbo “anaskolopizein” (empalar) para se referir à crucificação de Jesus e de Pedro.

O significado da palavra “crux” estendeu-se, em seguida, ao conjunto dos dois paus ajustados um ao outro, tal como o concebemos hoje em dia, na forma de +. A cruz na qual André foi crucificado, em forma de x, não era conhecida pelos autores antigos. A primeira menção que dela se faz é do século X, e a primeira imagem do século XVI.
Qual era a altura do “stipes” (tronco)? O pesquisador Holzmeister distingue a “cruz humilis”, que era curta, da “cruz sublimis”, que era comprida. Todas as citações históricas sobre a “cruz sublimis” mostram claramente que ela era reservada a personagens que os crucificadores queriam colocar em evidência.
Porém, a maioria das cruzes era baixa, “humilis”. Isto permitia aos animais ferozes lançados na arena despedaçarem, à vontade, os crucificados. Segundo informação do escritor romano Horácio, nas encostas do monte Esquilino, em Roma, havia uma floresta permanente de “stipites” onde os condenados eram crucificados. À noite os lobos saíam de seus esconderijos nesse monte para devorar as pessoas cru­ci­ficadas.
Suetônio conservou-nos um dos ignóbeis traços de Nero ao dizer que ele se disfarçava com uma pele de algum animal feroz na arena para satisfazer seu instinto sádico.
Consideremos também que usavam-se cruzes baixas na intenção de simplificar bastante a crucificação para os carrascos, principalmente quando os condenados eram numerosos. Sendo um suplício cotidiano, procurava-se sempre a comodidade para aqueles cuja profissão era crucificar as pessoas.

2.  O patibulum-furca. O pau horizontal apresenta, pelo menos em Roma, uma origem bastante curiosa. Era inicialmente uma “furca”, ou seja, uma peça de madeira em forma de V de cabeça para baixo, sobre a qual, nas paradas à beira das estradas, se descansava a lança dos carros de duas rodas. Quando queriam punir um escravo, colocavam-lhe a “furca” (= forcado) montada na nuca, prendiam-lhe as mãos às duas hastes e faziam-no passear pelas ruas obrigando-o a proclamar o que ele havia cometido. O comediógrafo Plauto, em sua peça “Mostellaria”, verso 56, diz: “Assim carregando o patíbulo, levar-te-ão pelas ruas, com aguilhoadas”.

Bem cedo essa caminhada expiatória passou a ser acompanhada pela desnudação e pelo açoitamento do condenado durante todo trajeto a que ele era obrigado a percorrer. Depois, para maior comodidade dos que açoitavam, aboliram a caminhada e passaram a enganchar a “furca” em uma estaca vertical fixa, o que permitia que o condenado fosse açoitado até a morte. O dramaturgo romano Plauto escreve em uma de suas peças: “Permito que me faças açoitar pendente na cruz” (Casina, verso 1003), e “Será carcomido de açoites, enquanto pendurado (na cruz)” (Mostellaria, verso 1167).
Mas, como nem sempre se tinha à mão uma “furca”, passou-se a usar um pedaço de pau comprido que servia para trancar as portas, e que se chamava “patibulum” (de “patere” = estar aberto, ao qual damos o nome de “tranca”). Foi assim que a parte horizontal da cruz, que em breve deixou de ser uma tranca tirada de alguma porta, tornou-se um pau retilíneo, levado pelo condenado, do tribunal ao campo dos “stipites”. Ele o carregava, geralmente, sobre a nuca, tendo os dois membros superiores estendidos e amarrados sobre ela de modo a ficar, desta forma, também impedido de atacar quem quer que fosse. Compreende-se agora o porquê da sentença condenatória: “Põe a cruz sobre o escravo”. Tertuliano compara este patíbulo à grande verga dos mastros dos navios romanos.
Sob o reinado de Constantino, quando a crucificação foi abolida, surgiu outra “furca”. Era uma estaca bastante alta, terminada em forquilha, em formato de Y. Nela o condenado era enganchado pelo pescoço (a cabeça o impedia de cair), e desta forma morria rapidamente, por estrangulamento. Porém, esse novo método de execução de condenados nada mais tinha em comum com a lenta morte de cruz. 

3.  A união dos dois paus. Os dois paus (o vertical e o horizontal) ficavam habitualmente separados. Como então o patíbulo era fixado sobre a haste vertical, o “stipes”? Isto podia ser feito de duas maneiras: ou fixando, através de pregos ou cordas, o patíbulo sobre uma das faces da estaca, ou apoiando-o sobre a extremidade da estaca. Ou fazia-se uma cruz (+) ou um T.

Quase todos os arqueólogos modernos afirmam que a cruz romana era em forma de T. Na arte cristã ela pode ser vista em todas as épocas sob as duas formas, se bem que o T pareça mais antigo. Era muito mais fácil a um carpinteiro preparar um T. Para isto bastaria ele cavar na madeira uma concavidade de encaixe no meio do patíbulo (o pau horizontal) e encaixar a extremidade da haste vertical nessa concavidade. Com uma cruz média de dois metros, no máximo, o encaixe poderia ser feito facilmente erguendo-se o patíbulo com os braços, sem necessidade de escadas ou suporte.

4.  O sedile. Em alguns casos os crucificadores fixavam no “stipes”, em sua parte média, uma espécie de haste horizontal, de madeira, que passava por entre as coxas do crucificado e lhe sustentava o períneo. Justino, o Mártir, falou sobre a “madeira da cruz, que está fixada no meio, sobres­saindo-se como um chifre, sobre a qual se assentam os cru­­­­­­ci­ficados”. Irineu disse que a cruz tinha cinco extremidades, e sobre a 5ª “descansava” o crucificado. Tertuliano também fala (Contra Márcion) do “sedilis excessus”, que lembra o chifre do rinoceronte. “Sedile“ quer dizer simplesmente um assento qualquer, e é provavelmente por causa destas passagens que os autores modernos chamam à haste perineal de “sedile”. 

Porém, ao estudarmos a causa mortis na crucificação, ve­remos que este apoio era destinado a prolongar consideravelmente a agonia do crucificado por diminuir a tração sobre as mãos, causa de tetania e asfixia. É mais provável que as cruzes não o tivessem, e que só fosse acrescentado quando se desejava prolongar o suplício. Compreende-se facilmente que quando era necessário fabricar centenas de cruzes, os carpinteiros não buscavam complicar muito as peças de madeira que a justiça lhes encomendava com um trabalho suplementar que sabiam ser perfeitamente inútil.
Veremos, além disto, ao estudarmos as chagas das mãos, (capítulo 5), as razões por que estou convencido da ausência deste suporte na cruz de Jesus. Aliás isto explica, ao menos em parte, a brevidade de sua agonia. Além do mais o sedile não foi representado pelos mais antigos artistas, pintores ou escultores que trabalharam o tema da crucificação do nosso Salvador. É verdade que tal fato não constitui argumento contra sua existência histórica, mas tenho certeza científica que ele não foi usado na cruz do nosso Senhor Jesus Cristo.

5.  O suppedanaeum. Em compensação, os artistas têm representado, com grande frequência, o supedâneo. Era uma espécie de pequeno degrau, e supostamente per­mitiu que Jesus apoiasse a ponta dos pés crucificados sobre ele. Encontramo-lo mencionado pela primeira vez em Gregório de Tours (século VI) em seu livro “De Gloria Martirii” [A glória do martírio]. Quando estudarmos a crucificação dos pés (capítulo 6), veremos como nasceu e se desenvolveu esta pura imaginação de artista.

6.  Os instrumentos de fixação – Os cravos nas mãos e nos pés eram a maneira habitual, essencial de fixação à cruz, quaisquer que fossem os motivos da condenação e a situação social do condenado. Tanto eram pregados os escravos como as pessoas livres, os judeus ou os romanos.

O erro que atribui a Jesus o monopólio dos cravos deve-se a uma frase de Tertuliano (Contra Márcion): “Somente Ele foi crucificado de modo tão especial”. Tão somente por causa de Tertuliano a iconografia cristã passou a representar Jesus pregado à cruz entre dois ladrões amarrados.
Realmente os dois modos de fixação (cravos e cordas) estiveram em uso, desde o começo, entre os romanos. Mas eram empregados em ocasiões diferentes, nunca combinados durante uma mesma execução de condenados. E nenhum texto insinua ou permite crer que os dois métodos tenham sido empregados simultaneamente sobre o mesmo crucificado. Os peritos sabiam perfeitamente que três cravos, quatro no máximo, eram mais que suficiente para executar uma crucificação rápida e sólida. O que passava disso era pura imaginação.
Creio que os cravos eram empregados com muito maior frequência. Em numerosos textos, não somente os cravos são formalmente citados, mas também fazem-se menção dos fluxos de sangue que manavam dos ferimentos dos que eram cravados na cruz. O romancista romano Apuleio cita no seu livro O Asno de Ouro: “Estas bruxas vão recolher o sangue de assassinos aderentes à cruz, para com ele exercer sua vergonhosa magia”. O termo técnico, que em grego designa com maior frequência a crucificação, é “proselosis”, do verbo “pros-helõ”, ou seu sinônimo “kathelosis”, do verbo “kathelõ”, e ambos significam “cravar”, “pregar”. E os dois têm por raiz o substantivo “helos”, que quer dizer “cravo” ou “prego”.

Modalidades da Crucificação
Tudo indica que a crucificação estava fixada em suas minúcias por uma série de leis e regulamentos internos, o que, no entanto, não impedia que houvesse sempre por parte dos carrascos uma certa fantasia sádica.

1.  Flagelação preliminar. Não estamos falando aqui do açoitamento que era mandado aplicar como castigo ou tortura em si, nem mesmo como um modo de matar os condenados, e sim tão somente do açoitamento que era o preâmbulo de toda e qualquer execução capital. Todo condenado à morte devia ser, por lei, açoitado preliminarmente, quer fosse a execução feita pela cru­cificação, ou por decapitação ou pelo fogo. Dela somente estavam isentos, segundo o historiador Theodor Mommsem, os senadores, os soldados e as mulheres que gozassem do direito de cidadania.

Entretanto, nos casos de decapitação, não se aplicava o chicoteamento propriamente dito, e sim a fustigação, que se fazia com varas.
A flagelação, que primitivamente era aplicada quando o condenado já estava sobre a cruz, passou, com o tempo, a ser aplicada no próprio local do tribunal. O condenado era ali atado a uma coluna (provavelmente com as mãos amarradas por sobre a cabeça, pois esta era a melhor maneira de imobiliza-lo, pois ele, que só podia repousar sobre as pontas dos pés). Encontramos em Plauto esta referência: “Levai-o para dentro e amarrai-o solidamente à coluna” (Bacchides).
Despiam o condenado antes de o açoitarem. Que instrumento era usado na flagelação? O “flagrum”, instrumento especificamente romano. Era o que nós conhecemos hoje como açoite ou chicote. Compunha-se de um cabo curto ao qual estavam fixadas grossas e compridas tiras de couro cru, geralmente duas. Na extremidade dos chicotes estavam inseridas pequenas esferas de chumbo ou ossos de carneiro.
As correias iniciavam a inchação e os primeiros cortes na pele, enquanto as pequenas esferas e os ossinhos impri­miam profundas contusões. A consequência disto era uma hemorragia nada desprezível e um enfraquecimento considerável da resistência do condenado.
O número de golpes com o açoite era, segundo a lei judaica, rigorosamente limitado a 40. Mas os fariseus, gente escrupulosa, para ter absoluta certeza de não ultrapassar o número, exigiam que se contasse “40 menos 1”, isto é, 39. Entre os romanos, a lei não conhecia outro limite senão a necessidade de não matar o condenado sob os golpes. Era ainda necessário que ele ficasse com forças suficientes para carregar seu patíbulo, e que morresse sobre a cruz. Ele era, às vezes, como diz Horácio “dilacerado pelos açoites... até enfastiar o carrasco”. (Épodo IV).

2.  O carregamento da cruz. Portanto, o condenado, prévia e devidamente flagelado, percorria a pé, despojado de todas ou de quase todas as suas roupas, e carregando o seu patíbulo, o trajeto do tribunal ao local do suplício, onde o estava esperando seu “stipes” (a haste vertical da cruz) no meio de verdadeira floresta de outros semelhantes.

A expressão “carregar a cruz” (em grego “stauron basta­zein”) só se encontra nos textos gregos ou rabínicos (em Plutarco, Artemidore, Chariton, nos comentários judaicos do Gênesis, e no Novo Testamento, entre outras fontes). Em latim, só é encontrada nas versões latinas da Bíblia. E como já vimos, é por sinédoque que a palavra cruz designa a parte horizontal desta.
O patíbulo era colocado sobre as costas e braços do condenado estendidos transversalmente, e em seguida amarrado nas mãos, braços e peito. Era, portanto, só o patíbulo que o condenado carregava. Como sempre, o dramaturgo romano Plauto, entre outros textos que poderíamos citar, resume tudo isto com uma frase: “Que leve o patíbulo pela cidade, depois será cravado na cruz”. (Carbonária).
A haste vertical da cruz (o “stipes crucis”), pelo contrário, esperava o condenado no lugar do suplício. Cícero criticou Labieno que “no campo de Marte... mandou fincar e estabelecer a cruz para o suplício dos cidadãos” (Em defesa de Rabínio). Esta expressão “mandou fincar e estabelecer“, pode ser melhor traduzida como “mandou colocar permanentemente”. Políbio cita o caso de um crucificado, em Cartago, que foi enganchado a uma cruz que já tinha um outro corpo.
Em Roma, o Montfaucon era representado pelos campos Esquilíneos, tornados célebres por Horácio, e onde se elevava, segundo Saglio (Dict. Daremberg) uma verdadeira floresta de cruzes, um bosque de “stipites”. Estava fora da Porta Esquilínea. Para os que conhecem Roma, ficava pouco mais ou menos na “Piazza Vittorio Emanuele”, um pouco além de Santa Maria Maior, para quem vem do centro.
Outro detalhe confirma o fato de que o condenado só carregava o patíbulo. O patíbulo sozinho devia pesar cerca de 50 quilos, e a cruz inteira devia ultrapassar os 100 quilos. Carregar o patíbulo não deixava de ser uma prova bem rude para um homem que acabara de sofrer severa flagelação e, consequentemente, perdera boa parte de seu sangue e de suas forças. Como poderia então ele carregar a cruz inteira, que pesava mais de 100 quilos? Pois não se fala nunca em arrastá-la. Todos os textos trazem o termo bastazein, “carregar”, e nunca thahere, “arrastar”.
Outro detalhe: À frente daquele que carregava a cruz ia alguém carregando o titulus, um pedaço de madeira sobre o qual estava escrito o nome do réu e o crime pelo qual ele fora condenado. Às vezes o próprio condenado levava esse titulus pendurado no pescoço. Depois, ele era fixado no alto da cruz.

3.  Modo da crucificação. Tudo o que acabamos de dizer sobre o fato de o condenado carregar somente o patíbulo, e depois este ser fixado sobre a haste vertical no local do suplício, supõe aquele modo que com tanta concisão e clareza expressou Firmicus Maternus: “O réu, pregado ao patíbulo, é içado para cima da cruz”. Quando a crucificação era feita com cordas, bastava enganchar o patíbulo sobre o qual o réu tinha sido amarrado, e em seguida prender-lhe os pés à haste vertical com algumas laçadas de corda. Mas quando a crucificação era feita com cravos, era necessário desamarrar o condenado e deitá-lo por terra com as costas sobre o patíbulo, puxar-lhe as mãos e cravá-las sobre as extremidades do patíbulo. Depois então é que ele era levantado já pregado no patíbulo, e este era enganchado no alto do “stipes” (ou haste vertical). Isto feito, nada mais restava senão pregar-lhe os pés diretamente sobre o “stipes”.

Esse soerguimento era feito com certa facilidade, sobretudo quando a cruz não ultrapassava os dois metros. Quatro homens podiam com facilidade soerguer nas mãos o patíbulo e o condenado, que deviam pesar no máximo uns 130 quilos. Podiam também fazer o condenado subir de costas uma pequena escada encostada ao “stipes”. Se a cruz fosse mais alta, deveriam então servir-se de forquilhas para erguer o patíbulo, ou de duas escadas maiores encostadas lateralmente ao “stipes”. De qualquer modo, não havia grandes dificuldades a superar.
Esta técnica é, por outro lado, sugerida pelas expressões empregadas para designar a própria crucificação. Todas elas dão a idéia de elevar. Em grego epibainein ton stauron, “subir para a cruz”, e em latim in crucen ascendere, “ser içado à cruz”.
O próprio Jesus descreveu esta técnica quando predisse a morte de Pedro: “Estenderás as mãos e um outro te cingirá e te conduzirá para onde não queres. Jesus disse isso para indicar o tipo de morte com que Pedro iria glorificar a Deus” (Jo 21.18,19) O “estender das mãos” era a aplicação do patíbulo no tribunal, sobre as costas e membros superiores do condenado. Cingiam-no, depois, com uma corda para o conduzir ao lugar do suplício.
Às vezes a fantasia dos carrascos podia variar o modo regular da crucificação. Alguns defumavam os crucificados ou os queimavam. Outros modificavam a posição clássica, pregando-os de cabeça para baixo, como fizeram na Palestina durante o governo do imperador Diocleciano, conforme nos informa Eusébio. Sêneca escreveu: “Vejo cruzes de gêneros diversos, e alguns ali estão pregados de cabeça para baixo”. Segundo informação de Orígenes, Pedro foi assim crucificado.

4.  A guarda militar. Toda execução devia ser feita legalmente com um aparato inteiramente militar, sob as ordens de um centurião, conforme testemunha Sêneca: “O centu­rião arrastava a multidão daqueles que iam perecer”. O exército, que já se havia encarregado da flagelação, fornecia a escolta para conduzir o condenado do tribunal ao lugar do suplício. Era ainda entre os membros dessa escolta que se recrutavam os carrascos para a crucificação. O exército regular também fornecia uma guarda para ficar velando ao pé da cruz. Esses guardas tinham a função de impedir que parentes ou amigos da vítima viessem e a tirassem da cruz. Era necessária, portanto, uma guarda permanente ao pé da cruz até à morte dos condenados. E essa guarda muitas vezes ficava até após a morte do crucificado, segundo o testemunho de Petrônio, “para que não viesse alguém roubar o corpo para sepultá-lo”. O que era feito, pois, dos cadáveres dos crucificados?

5.  Sepultar e não sepultar. Em geral, os cadáveres ficavam na cruz para servir de pasto a aves e animais selvagens. Assim responde Horácio a um escravo inocente: “Tua carne não alimentará na cruz os corvos”. (Ep. I, 26). No seu livro Épodo (Cap. V), o mesmo Horácio escreveu: “Depois teus membros insepultos serão devorados pelos lobos e aves do Esquilínio”. Muitos outros autores comentam o mesmo tema. (Petrônio, Sêneca, Artemídoro, etc).

Porém, os corpos também podiam ser solicitados pelas famílias que quisessem lhes assegurar uma sepultura decente. E parece que a lei facilitava sem dificuldades nem taxas esta última concessão. Qualquer um podia solicitar os cadáveres. Até mesmo as cinzas dos que haviam sido condenados ao fogo (pandectas) podiam ser devolvidas. As provas que temos destas leis de clemência são precisamente os casos em que a autorização gratuita foi recusada, e que são apontados como exceção. Cícero, no seu livro Dos Suplícios, censura veementemente a Verres o fato de este ter pedido muito dinheiro para entregar os corpos de supliciados que suas famílias não queriam ver devorados por animais. Tal extorsão, diz o grande orador, era contrária à lei.
Por outro lado, o juiz podia, uma vez que a autorização dependia dele, recusá-la em certos casos por vários motivos em que geralmente entrava o ódio contra o condenado. Vespasiano acrescentou esta pena suplementar à condenação de alguns revolucionários que pretendiam matar o imperador, e que por isso foram crucificados e tiveram seus corpos atirados aos monturos de lixo, sem direito à sepultura (Suetônio). O imperador Otávio Augusto, após a batalha de Filipos, proibiu o sepultamento de um cativo de certa fama, respondendo aos que vieram lhe pedir para sepultar o morto, que bem cedo isto seria o ofício dos abutres (Suetônio). Semelhantemente Flaccus, prefeito do Egito, no ano 38 da nossa era, não autorizou a sepultura para certos judeus crucificados (Filon, in Flaccum). 

6.  O golpe com a lança. Quintiliano, que é do século I, escreveu: “O carrasco não impedirá que sejam sepultados os que foram feridos”. Esta afirmação introduz aqui uma informação nova, e que interessa diretamente nosso assunto. O que ele queria dizer, na realidade, com esse ferimento? Não se tratava do suplício em si mesmo nem da flagelação, uma vez que estava-se tratando de condenados à morte, e sabe-se que estes já haviam sido flagelados e crucificados.

Tratava-se, portanto, de um golpe especial, posterior ao suplício, e que lembra o que se costuma chamar em nossos dias de “golpe de misericórdia”. É aquele último golpe que se dá na vítima para se ter certeza de que ela está realmente morta. Podemos, pois, com bom fundamento, interpretar a frase de Quintiliano como: “O carrasco permitirá o sepultamento dos supliciados depois que estes tiverem recebido o golpe de misericórdia”. Mas, em que consistiria este golpe de misericórdia regulamentar, indispensável para que o carrasco autorizasse a entregar o corpo à família? Origenes fala claramente (Comentário a Mateus) que era um golpe no coração. Era um golpe que se dava, às vezes, logo depois da crucificação para matar rapidamente o condenado.
Assim, pois, quando a família pedia o cadáver, o carrasco devia antes de tudo ferir o coração do crucificado. Como geralmente o carrasco era um soldado, o golpe devia ser executado com a arma que ele tinha em mão, geralmente uma lança ou um dardo. Este golpe no coração, dado pelo lado direito do peito, era conhecido como infalivelmente mortal pelos soldados dos exércitos romanos. Proporcionava, pois, certeza sobre a morte real do condenado... ou, se fosse o caso, a provocaria.
 
Pierre Barbet