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sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Oi, eu sou Deus.

                              

   Sou Deus mesmo.

Aquele que criou os céus, a terra e toda a natureza animal e vegetal. Criei o homem, acredita? Sabia que o criei a minha imagem e semelhança? Você se parece comigo, posso perceber os traços que são fortes. Até sua personalidade, já tão deturpada, é original da minha.
É muito triste ouvir de algumas pessoas que você tem procedência animal. Acha que primeiro eu ia fazer o macaco para depois evoluir até virar seres racionais? Que tristeza! Tentam tirar o meu mérito e a glória de minha maior e melhor criação!
Você acredita que eu mandaria meu único e amado filho Jesus para sofrer e levar sobre si culpa, pecados e morrer na cruz para salvar... descendentes de macacos? Você sorriu? É, isto soa estranho mesmo!
Você ficaria abismado com o que eu ouço dos homens... , estudam, tramam, discutem e,imagine, querem descobrir como eu fiz a Eva! Você não pensa se eles não têm nada melhor para fazer? Eu sei... conheço o pensamento de cada um deles... seus desejos... e, principalmente, suas ambições. São inteligentes, mas falta a cada um deles a minha sabedoria .
Já permiti aos homens conhecerem a cura de todos os tipos de câncer, da aids e outras doenças. Eles só não descobriram ainda porque vão por caminhos errados. Vão atrás de suas ambições pessoais. Não unem esforços a favor de propósitos nobres, mas, cada um trabalha pensando em sua própria glória. Glória...! isto pertence a mim, sabia? Porque eles não se contentam com o reconhecimento e o valor da descoberta?
Não, não é o suficiente! Eles precisam ter como resultado a glória e a consagração.
Glória e consagração. Isto importa a todo mundo, não é? Alguns sabem a quem pertence. Estes são os que, como você, me conhecem. São os meus filhos.
Outros brigam, devoram-se, tentam crescer, subir e chegar a mim. Acredita que eles querem se igualar a mim?
E, minha filha, eu os permiti conhecer os mistérios da ciência, mas eles não se contentam e querem mais. Dizem coisas absurdas daquilo que para mim é tão simples. Se eles soubessem que os meus caminhos são os mais curtos, minhas respostas mais objetivas, minhas fórmulas as mais simples... Eles nem iam acreditar que eu sou Deus, porque para eles tudo tem que ser difícil e complicado. Muitos deles sequer acreditam que eu existo. Sabe por quê? Isto seria admitir que alguém acima deles seja realmente dono da "honra" e de toda "glória". Admitir que alguém tem mais poder, inclusive sobre a vida. Você já pensou que para eles é difícil acreditar que a vida me pertence? No dia em que eu soprei nas narinas de Adão, foi bom, muito bom. Tive uma sensação gostosa como ninguém jamais sentiu. Foi diferente dar a vida ao homem: foi um prazer inigualável. As vidas animal, vegetal e angelical não saíram de mim; eu criei uma vida e os dei, mas a vida do homem,esta saiu de mim. Não criei uma vida, mas tirei um pouquinho de mim, de dentro de mim e dividi com o homem. Será que minhas criaturas são capazes de criar e dar vidas como eu a dei? Diga a eles que soprem como eu soprei. Quem sabe, dá certo. Comigo deu. Eu falo, eu faço.

SEU DEUS!

At: Damaris Lisboa

quarta-feira, 4 de maio de 2022

MARIA CONFESSA A JOSÉ QUE ESTÁ GRAVIDA

 

               


         Poucas palavras foram trocadas entre José e Maria quando ambos se achavam sentados juntos no telhado da casa algumas horas mais tarde, naquela noite. José mantinha a cabeça imóvel entre as mãos, os olhos fitos no chão. Não via que Maria o contemplava com infinda compaixão e com expressão tal, como se os seus olhos pudessem afastar as sombras que cobriam o rosto do jovem, cujas feições pareciam ter envelhecido.

         – Diz-me uma palavra, Maria, balbuciou José rompendo finalmente o silêncio. Diz-me que não tem razão todos aqueles que te acusaram. Diz-me que eu acreditarei. Sei que o teu coração não encerra nenhum pecado.

     Eles falaram a verdade, José.

     Quem?

– Aqueles que disseram que eu trazia em meu ventre a esperança do mundo.

     Maria, eu não compreendo o que queres dizer.

     Vou ter um filho.

Um estremecimento percorreu o corpo de José. Ele ergueu a cabeça e levantou-se depois com certa dificuldade.

– Maria, sei que não há maldade em teu coração, disse. Possa Deus proteger-te sempre, estejas onde estiveres.

Curvou-se para a esposa e a deixou a sós na escuridão. Os olhos de Maria acompanharam a sua figura. Ela o viu atravessar cambaleante o jardim e desaparecer depois entre as casas iluminadas da cidade.

Ao chegar à pequena oficina de Reb Elimelech, José atirou-se no catre e começou a meditar no que devia fazer. Não alimentava ressentimento algum para com Maria, pois, no íntimo, sabia que não podia acusá-la de infidelidade. Tinha a certeza de que ela desejara dizer-lhe alguma coisa. Seus olhos lhe haviam falado com uma eloqüência que lhe era peculiar. Achava que só mesmo a obtusidade de seu espirito é que o impedira de compreender o que eles lhe queriam dizer. Haviam-lhe suplicado para que não a julgasse... Sim, Deus proibia que ele a julgasse. Ele tinha vindo de terras distantes... Quem poderia conhecer as atribulações por que ela passara antes de se terem encontrado? Quem podia saber da amargura que lhe pesava o coração, da qual se lhe via transparecer nos olhos apenas um vislumbre? Mas seria realmente amargura o que vislumbrara em seus olhos? Sem dúvida eles eram radiantes e esparziam um mundo de felicidade. Maria dissera que trazia no ventre a esperança do mundo. Ele não compreendera – e até mesmo naquele momento não compreendia o que ela quisera dizer com isso – mas a indizível alegria de seus olhos confirmavam aquelas palavras, colocavam-na longe do alcance de qualquer pergunta e de qualquer dúvida. Não podia caber no esplendor dessa alegria um pecado. Não inspirava piedade mas sim o desejo de se partilhar a sua felicidade.

Não havia, porém, lugar para ele naquela felicidade. Deveria ter surgido algum outro – alguém que ela julgara mais digno. Não estaria ele então sendo um empecilho para ela? Não iria ele ser a lembrança viva da censura? Não quisera condená-la. Fizera a sua obrigação. Assumira a responsabilidade do que se passara, confessara publicamente ter sido o autor de um ato vergonhoso qualquer que tivesse sido cometido. Maria salvara-se das garras da lei. Nada podia suceder-lhe agora. E, quanto a ele, a única coisa que restava a fazer seria afastar-se de suas vistas e sair de Nazaré, voltar para o lugar de onde viera. O povo da cidade iria naturalmente amaldiçoá-los quando saísse. Iriam dizer que casara com uma pobre órfã tão somente para abandoná-la depois, e seria, sem dúvida, uma coisa dolorosa deixar atrás de si um nome manchado, pensou. Poderia de algum lugar distante requerer o divórcio, de acordo com as leis de Israel. o que mais lhe iria pesar no espirito seria o sofrimento que causaria então ao seu parente, o bom Reb Elimelech. Desde o momento em que chegara até aqueles últimos dias, o velho Reb fora de uma grande bondade, protegera-o com toda a força de que dispunha. José sentiu-se torturado só em pensar no mau juízo que Elimelech haveria de fazer dele até o fim de sua vida. Mas até isso ele teria que suportar. Estaria disposto a pagar qualquer preço que poupasse Maria da vergonha e da aflição que a sua presença lhe causaria. Queria que ela ficasse imaculada e inocente perante a família e o povo de Nazaré.

sábado, 30 de abril de 2022

JOSÉ SE EXPRESSA DIANTE DA CONGREGAÇÃO

 


                                 Toda a congregação desviou seus olhos de José e fixou-os no chão como se o perigo que a noiva estava correndo fosse também o deles. José não respondeu imediatamente. Somente depois de uma expectativa que pareceu eterna é que levantou a cabeça e, fitando em cheio o rabino, disse em voz clara e ressonante:

         – Declaro perante esta sagrada congregação que minha noiva Maria, a filha de Hanan, é casta e sem mácula. Ela é inocente de toda e qualquer culpa, pois o culpado sou eu... Tratai-me agora de acordo com a lei.

         Suas palavras romperam a tensão reinante, seguindo-se-lhe forte reação. Punhos cerrados o ameaçavam de todos os lados. Subia na sala um vozerio eivado de ódio e ouviu-se, dominando aquele tumulto, Cleofas esbravejar, completamente fora de si.

         – Hei de exigir-lhe reparações! Hei de faze-lo indenizar toda a família!

         – O que foi que eu disse? gritou o sacerdote. Por acaso faltavam jovens nesta cidade para que abandonássemos a órfã Maria a este estranho que está fazendo a nossa mais nobre família passar por grande vergonha?

         O rabino impôs mais uma vez silêncio à multidão. Sentia-se aliviado, sabendo que havia afastado uma grande desgraça. Voltou-se para os parentes da noiva e disse:

         – O nosso jovem amigo José ben Jacob acaba de declarar-nos que desposou a noiva na maneira santificada pela Tora e pela lei de Moisés e Israel. Ele não lançou nenhuma vergonha sobre a família e ninguém tem direito de exigir-lhe satisfações. A partir de hoje, Maria, filha de Hana, é sua esposa legal e – virando-se para José – faço votos para que a vossa união seja abençoada com alegria e felicidades.

         O rabino encaminhou-se depois para José que ficara completamente confuso, estendeu-lhe a mão. Por fim, voltou-se para os presentes e concluiu com as seguintes palavras:

         – Povo de Nazaré! Construiu-se um novo lar em Israel! Desejemos a ele uma eterna ventura.

         O seguinte a aproximar-se de José foi Reb Elimelech.

         – Como sabes, José, não recorremos a tal processo em Israel, e eu esperava que a filha de meu irmão merecesse um casamento no altar. Mas com a ajuda de Deus o teu casamento será abençoado e tua esposa te dará muitos filhos e tu lhes proporcionarás uma boa educação.

         O velho retirou-se depois deixando José sozinho na sala do tribunal.

 

*

quarta-feira, 27 de abril de 2022

O RABINO DA CIDADE INTERROGA JOSÉ

                         



         – José ben Jacob, começou o rabino balançando o corpo, como se estivesse rezando, e cofiando os fios brancos e sedosos da barba, chegaram-nos informações que dizem respeito à jovem Maria, da qual ficastes noivo não faz muito tempo. O assunto nos deixou bastante apreensivo e clama por uma explicação... Fez uma pausa, e o movimento de seu magro corpo quase parecia Ter-se perdido nas espessas dobras da túnica. – Pois, mesmo que tais coisas tenham ocorrido no passado – conforme sabemos de casos anteriores que chegaram aos nossos ouvidos – tal não é, porém, o nosso costume na Galiléia. Contudo, o ato a que me refiro somente é permissível se o noivo admitir tê-lo praticado para fins de casamento. Portanto, peço-vos agora, José ben Jacob, dizerdes a este tribunal se desposastes a vossa noiva, a referida Maria, por meio de coabitação e se sois o pai da criança que ela traz em seu ventre.

         José não respondeu. Seu rosto tornou-se lívido. Fechou os olhos e deixou cair a cabeça sobre o peito, tomado de desespero e vergonha. Não viu os olhares rancorosos de Cleofas, o cunhado, e do sacerdote Hanina, os quais ocupavam os bancos laterais reservados à família da noiva. não reparara nas feições pálidas e transtornadas de Reb Elimelech, cujas rugas pareciam ter-se tornado mais profundas naqueles últimos dias. Esquecera-se da presença do rabino e de seus assistentes e do chefe da sinagoga, o venerável Reb Jochanan, um dos filhos de Issachar, membro do tribunal. Nem mesmo ouvia o murmúrio abafado da congregação, a qual ocupava os bancos do fundo e se comprimia na entrada da sala. Tampouco via os rostos das mulheres e das jovens que o observavam através das janelas. Parecia esmagado ao peso daquele golpe inesperado. O seu próprio corpo deu de repente a impressão de que diminuíra, como se lhe tivesse esvaído o sangue. E ele continuou encerrado no seu silêncio.

         Toda aquela gente ali reunida no tribunal juntou-se ao seu silêncio. Todos como que prenderam a respiração para ouvir o que o jovem forasteiro diria contra a acusação que lhe faziam. José, porém, persistia em sua mudez.

         – O silêncio eqüivale a uma confissão, declarou por fim Reb Elimelech,   ansioso por dar paradeiro à dolorosa tensão. Mas o rabino insistiu:

         – Esta questão é demasiado grave e não podemos abandoná-la tão somente por causa de uma confissão pelo silêncio, declarou. José ben Jacob, peço-vos, pela Segunda vez, em nome deste justo tribunal, que declareis perante nós se consumastes ou não o casamento pela coabitação, ou se estais inocente nessa questão e não sois o pai da criança que a vossa noiva Maria traz em suas entranhas.

         As palavras do rabino ecoaram lugubremente, tornando o silêncio reinante mais profundo ainda. Todos os presentes tiveram a consciência viva da importância que elas representavam. O medo apoderou-se do espirito de todos. Era como se o ar parado da sala do tribunal tivesse sido agitado pelas asas de um anjo fatal. Todos sabiam o que aconteceria se José negasse a sua participação no caso, esperavam com profunda ansiedade a sua resposta.

         Um gemido prolongado rompeu o silêncio. Foi entre soluços que José gritou:

         – Ó Pai Celeste! Estaríeis assistindo a essa humilhação de uma inocente filha de Israel?

         – O que foi que ele disse? O que foi? ouviu-se cochichar entre os espectadores.

         – Explicai o que quereis dizer, José ben Jacob, ordenou o rabino.

         – O que quero dizer é o seguinte: Qual foi o homem ou a mulher que lançou essa infâmia sobre a minha noiva?

         O rabino e seus companheiros juízes ficaram aturdidos.

         Foi como se a acusação do jovem os visasse diretamente. Passado um instante, os parentes da noiva ergueram-se tumultuosamente. Cleofas parecia ter recebido uma aguilhoada e sacudiu um punho ameaçador para o acusado. Atrás dele via-se o sacerdote Hanina que gesticulava freneticamente. Da porta de entrada vinha um vozerio confuso que aumentava de intensidade. O rabino levantou a mão impondo silêncio e recomeçou em voz trêmula:

         – José ben Jacob, Deus é testemunha de que não partiu deste tribunal a acusação que pesa sobre vossa noiva. antes de vos chamar para comparecerdes neste tribunal, tínhamos recebido informações que nos haviam deixado bastante inquietos. Não nos deixamos, porém, guiar apenas por elas, esforçamo-nos muito por investigar o caso, ouvimos testemunhas de integridade impecável – muitas matronas e jovens que ouviram a vossa noiva, a jovem Maria, confessar que ia ser mãe e invocar o Nome Sagrado e agradecer a Deus pela graça que Ele lhe dera. Ouviram-na dizer isso não apenas uma ou duas vezes, mas sim muitas vezes. Foi no poço, onde ia buscar água todas as manhãs e todas as tardes, que ela confiou esse fato a suas amigas. E ainda protelamos o julgamento, pois quisemos ouvir mulheres versadas nessas questões, as quais nos declararam que não havia dúvida alguma de que vossa noiva estava em estado de gestação. Não vemos motivo para duvidar do depoimento dessas testemunhas. Pedimo-vos, pois, pela terceira vez, que declareis publicamente, perante a congregação aqui reunida, se é fruto vosso a criança que vossa noiva Maria traz em seu ventre. Se, livrai-nos Deus, algum outro homem for o pai da criança, sabereis então a desgraça que pairará sobre vossa noiva, sobre a casa de sua genitora e sobre todos nós nesta sagrada congregação. José ben Jacob, tirai a mancha que cobre o nome de uma filha de David! Aplacai a inquietação que reina nos corações desta comunidade de Israel! Confessai!

domingo, 24 de abril de 2022

AS MULHERES DE NAZARÉ ESCANDALIZAM-SE COM MARIA

 

AQUELA OCORRÊNCIA no poço tornou-se pouco tempo o tema de conversação em toda a cidade. Tanto as jovens como as matronas aguçavam a vista em direção a escandalosa virgem, procurando confirmação das suspeitas que as suas palavras haviam despertado. Faziam-no em qualquer lugar em que ela estivesse, fosse no mercado ou no poço, algumas com timidez, outras com ar de conhecedoras.

         – Bobas que sois! A barriga dela já está volumosa e ainda estais procurando descobrir qualquer sinal! escarneceu uma viúva que tinha a pretensão de conhecer algo do ofício de parteira.

         – O novo carpinteiro gosta de furtar os figos antes de estarem maduros, declarou a outra.

         Não demorou muito para que os boatos chegassem aos ouvidos das autoridades, e o rabino, juntamente com os juízes do tribunal, decidiram que o caso exigia uma investigação oficial.

         Acontecia que, sob o ponto de vista estritamente legal, o ato de coabitação entre noivo e noiva não constituía crime. De fato, era uma das três maneiras reconhecidas cara concluir um contrato de casamento. No entanto, deve-se acrescentar que a sua legalidade não amenizava de forma alguma a ação indecorosa, pois tais relações com uma noiva eram consideradas violação brutal do decoro e uma nódoa que ficaria para sempre na família da noiva. todavia, o ato em si não era suscetível de punição contanto que o noivo confessasse ser o autor e declarasse publicamente que escolhera tal método como o meio de consumar o casamento. No entanto, se ele negasse a sua participação no caso, a culpa de infidelidade caía toda sobre a noiva, a qual seria então estigmatizada como adúltera, e, para o crime de adultério, as leis de Moisés admitiam apenas uma punição – morte a pedradas. Com tal ameaça a pairar-lhes no espirito, as autoridades não sentiam disposição para mortificar uma filha de Israel, acusando-a de um crime capital. Decidiram, por conseguinte, interrogar primeiro o noivo. O caso ficaria encerrado imediatamente, se ele confessasse o fato.

         Como se poderia esperar, José ignorava completamente os boatos que agitavam a cidade, não obstante a nuvem de tristeza que pairava sobre os seus parentes. Cochichavam sempre a seu redor. Ficavam com as fisionomias carregadas toda a vez que ele aparecia, e mesmo assim José mal percebia a transformação e, certamente, estava longe de suspeitar a verdadeira causa de tudo aquilo. Achava-se demasiadamente absorvido com os preparativos de seu próximo casamento e economizava os seus magros ganhos para poder comprar presentes para a família da noiva e o vinho que deveria fornecer para a festa. Sabia o conceito em que um homem era tido pelo número de copos que se bebia nessa ocasião.

         José estava tão embebido nos preparativos e a eles se dedicava com tal ardor, que nem deu pela mudança na atitude de seu parente e amigo, Reb Elimelech, o qual começara a afastar-se dele, quase deixando mesmo de responder às suas saudações. Na família da noiva, as coisas eram ainda piores; seus membros murmuravam com azedume contra o jovem intruso que lhes destruíra a paz. A própria mãe de Maria refugiara-se num canto da casa numa noite em que José fora visitar a noiva.

         Foi na sinagoga que José viu que todo o mundo o evitava. Os homens não deram atenção às suas saudações e evitavam passar perto do banco em que se achava. Viu o olhar de zombaria e de desprezo que lhe atiravam. Ficou completamente surpreendido com aquele tratamento, pois ignorava tivesse cometido qualquer falta. Teria, ao mesmo tempo, rejeitado veementemente a idéia de que aquela hostilidade geral que começara a pesar-lhe terrivelmente no espirito tivesse qualquer relação com a noiva, principalmente com a sua castidade. Teria imposto o silêncio a qualquer homem que ousasse ferir a honra de uma filha de Israel. Permaneceu assim, na ignorância dos fatos, pois não encontrava justificativa para o tratamento cruel que lhe estavam dispensando.

         Foi, portanto, com genuína e profunda surpresa que recebeu uma intimação para comparecer perante o tribunal de Nazaré.