mulher.

.

domingo, 27 de maio de 2012

O Julgamento, a Condenação e a Crucificação de Jesus em Documentos Antigos I


                                             
                   A Altura da Cruz
     Podemos calcular essa altura considerando o que os soldados usaram para erguer a esponja embebida em vinagre até os lábios de Jesus. Mateus e Marcos falam em caniço (Mt 27.48; Mc 15.36). Esse termo em hebriaco é “hysso”, e quer dizer dardo. O dardo tem precisamente o aspecto de caniço. Esse “hyssos”, ou o “pilum” romano, tinha cerca de 90 cm de comprimento. Desta forma a esponja podia ser facilmente erguida a 2,50 metros. Portanto, a cruz em que Jesus foi crucificado era baixa.
Creio também que foi usada a “crux humilis” porque não havia razão para se fincar um tronco especial, mais alto, mesmo que fosse para se fazer zombaria ao “Rei dos Judeus”. Não havia tempo para isto, e os stipes (a parte vertical da cruz) estavam fincados permanentemente no Gólgota, local habitual de execuções. E esses stipes eram baixos, para facilitar o trabalho freqüente dos carrascos. Além de Jesus, condenado às pressas, deveriam ser executados naquele dia dois bandidos condenados por julgamento regular. Tratava-se, pois, de execuções regulares.
     Os stipes tinha quase dois metros de altura, o que permitia enganchar facilmente neles o patíbulo. Os pés podiam ser pregados com facilidade, a cerca de 50 cm do solo. A boca do crucificado ficava quase na mesma altura do patíbulo, e, portanto, a quase dois metros do chão. Certamente era mais cômodo colocar a esponja na ponta de um dardo para erguê-la a essa altura do que fazer o esforço para erguê-la com a mão.
     Um outro fato a ser levado em conta nesta questão é o golpe de lança. É certo que anatomicamente falando, o golpe foi dado obliquamente, mas quase horizontal. Ora, em minha hipótese de dois metros, o peito de Jesus estaria a cerca de 1,50 metro do solo. Um soldado de infantaria podia, pois, com facilidade, aplicar este golpe com o simples levantar dos braços. Com a cruz mais alta, isto seria simplesmente impossível. Ora, os soldados eram certamente legionários e, portanto, infantes. Eram comandados por um centurião, oficial de infantaria, oficial não montado. Ora, somente um soldado da cavalaria teria podido desferir o golpe quase na horizontal sobre um crucificado mais elevado.
     Podemos citar ainda o texto de Eusébio, que diz que a mártir Blandina “fôra exposta (na cruz) como pasto às feras”. Tratava-se, portanto, da cruz baixa, ordinária, a das arenas. “E pendente da cruz, assemelhava-se àquele que foi em benefício deles mesmos (os mártires) crucificado”. Iria esta semelhança até as dimensões da cruz? Não quero forçar o texto, mas bem me parece que o sugere.
     Porém, há quem se apegue a uma expressão usada por Jesus para tentar defender que ele foi crucificado em uma cruz alta: o verbo “hypsousthal – ser levantado”, que Jesus aplica a si mesmo três vezes no evangelho de João (Jo 3.14;8.28 e 12.32), referindo-se à sua crucificação. Na terceira vez Ele diz: “Mas eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim”. Porém, é evidente que uma cruz das dimensões da que nós estamos afirmando que foi utilizada na crucificaçõ de Jesus satisfaria também plenamente o sentido deste verbo.
             O Formato da Cruz
     Como teria sido a cruz de Jesus: em forma de T ou em forma de +? Muitos dos antigos escritores da Igreja acham que era em forma de +. Mas não encontramos na Patrologia nenhuma afirmação bastante clara neste sentido. O Pseudo Barnabé, Orígenes e Tertuliano afirmaram que a cruz era em forma de T. Tertuliano dizia que a passagem de Ezequiel em que o Senhor ordena que a fronte dos homens de Jerusalém fosse marcada com um sinal (Ez 9.4), esse sinal era um tau (o nome do T em grego), e isto era já uma prefiguração da cruz onde Jesus seria crucificado.
     Seria realmente interessante saber como os cristãos dos primeiros séculos imaginavam a cruz. Infelizmente, esta era, em todo o mundo romano, um objeto que inspirava um horror tão grande e acarretava tanta infâmia que ninguém ousava exibi-la, mesmo aos olhos dos fiéis. Toda a pregação apostólica era uma pregação alicerçada no triunfo da Ressurreição. Portanto, Jesus era representado triunfante, vivo diante da cruz. Somente na idade média é que se desenvolveria a imagem e o culto da Paixão, a idade mística da Compaixão.
     Nas catacumbas, a cruz é extremamente rara. Só foram encontradas umas vinte, e as escavações quase não aumentaram esse número. São cruzes nuas, sem corpos. Em lugar da cruz aparece com muito mais freqüência outros símbolos, como a âncora, que representa a esperança, e Jesus é nossa maior esperança! Aliás, a âncora está muitas vezes associada ao peixe, que geralmente a cobre. Peixe é em grego “ichthys”, cujas letras são as iniciais das palavras gregas correspondentes a: “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”. O peixe deitado por sobre a âncora, e algumas vezes sobre um tridente, é excelente imagem da cruz. A âncora evoca, por sua forma, claramente a cruz em T.
Portanto, ao longo dos séculos, a cruz tem sido representada sob as formas de T e de +. Como se vê, os indícios sobre a cruz de Jesus são bem raros e bastante imprecisos. Mas também aqui não vejo razão para que se tenha fabricado uma cruz especial para Ele. A cruz onde ele foi crucificado foi uma das cruzes comumente usadas no Gólgota. Seria uma cruz de altura média e em forma de T, como o eram normalmente as cruzes romanas, segundo o parecer dos arqueólogos.

                   Os Cravos
     Jesus teve os dois pés e as duas mãos cravados sobre a cruz. Este fato havia sido profetizado por Davi: “Pregaram-me as mãos e os pés” (Sl 22.16), e está também de acordo com a afirmação do próprio Salvador que disse aos apóstolos reunidos no Cenáculo, por ocasião de sua primeira aparição: “Vede minhas mãos e meus pés, que sou eu mesmo!” (Lc 24.39).
     O único problema a resolver está no número dos cravos: Foram três ou quatro? Ou, em outras palavras: os pés de Jesus foram pregados separadamente ou um sobre o outro, com o mesmo cravo? A arqueologia romana parece absolutamente muda sobre este ponto. Os antigos autores eclesiásticos se dividem entre as duas opiniões, mas infelizmente não apresentam os motivos de suas preferências.
     Cipriano, Ambrósio e Gregório de Tours falam de quatro cravos. Porém Nonius, no século IV, fala que Jesus foi crucificado “com os pés cruzados”. Gregório Nazianzeno escreve que Jesus foi “colocado no madeiro com três cravos”, e Boaventura acrescenta que “aqueles três cravos sustentavam todo o peso do corpo”.
     E é nisto que nós acreditamos, e a maioria das evidências confirma. Jesus teve os seus pés cravados na cruz um sobre o outro, e para isto foi utilizado um só prego (ou cravo).

     Jesus Estava Nu Sobre a Cruz?
     Está fora de dúvida que, antes de crucificarem Jesus, tiraram suas roupas, pois João nos informa que os soldados as dividiram entre si e lançaram sorte sobre sua túnica (João 19.23,24). Trata-se, pois, de saber se mantiveram algum pano cobrindo a sua nudez da cintura para baixo. Alguns estudiosos afirmam que Jesus estava na cruz completamente nu, porém baseiam geralmente sua opinião em razões de simbolismo tiradas do Antigo Testamento (por exemplo, Adão estava nu quando pecou, e Jesus deveria estar nu quando nos resgatou), ou se referem ao “costume romano”, sem apresentarem nenhuma outra prova histórica especial para o caso de Jesus.
     A esta opinião podemos opor um texto apócrifo tirado dos “Atos de Pilatos”, segundo o qual, depois de terem tirado as roupas de Jesus, teriam restituído a Ele um “lention”, palavra grega que quer dizer “pano”, uma espécie de tanga.
     Seria de admirar que os romanos que o haviam tornado a vestir após o açoitamento, e antes que Ele começasse a carregar a cruz – isto, diga-se de passagem, contrariando seus próprios costumes devassos a fim de respeitar a tradição nacional e as idéias judaicas de decência – após dividirem suas roupas a lançarem sorte sobre sua túnica, não lhe tivessem deixado pelo menos esse pano cobrindo sua nudez quando ele foi pregado na cruz.
     O costume judaico era o seguinte: “Chegando à distancia de quatro côvados do local da crucificação, despe-se o condenado e, se for um homem, ele deverá ser coberto pela frente; se for mulher, deverá ser coberta pela frente e pelas costas” (Tratado do Sinédrio, questão VI). Mas todas essas polêmicas ficam profundamente influenciada pelo “costume romano”. Entre eles, o crucificado deveria ficar nu? É o que afirma Artemídoro. Porém, o termo “estar nu” conforme o entendemos hoje (completamente despido de roupa) não tinha o mesmo significado entre os antigos. Todas as pessoas do tempo de Jesus usavam por debaixo das vestes, quaisquer que fossem, o que chamavam de “subligaculum”. Era uma espécie de calção, formado por uma faixa de pano que se enrolava em volta dos rins e das coxas, e que era usado permanentemente.
     Marcos conta (14.15) que após a prisão de Jesus, um jovem – provavelmente ele mesmo – seguiu o cortejo usando tão somente um “sindon” (um lençol?) sobre o corpo nu. O “sindon” era uma comprida peça de pano com que as pessoas envolviam o corpo por debaixo da túnica, e que era utilizada como roupa noturna. Marcos estava dormindo no Jardim das Oliveiras, e certamente despira sua túnica, mas com certeza conservara seu “subligaculum” por debaixo do “sindon”.
     Ora, quando os guardas o quiseram pegar, ele abandonou o “sindon” e “fugiu nu”. Parece, portanto, que esta nudez não eliminava o “subligaculum”.
     A questão é um tanto polêmica. Vejamos o que dela pensou a iconografia. Pode-se dizer que nenhum artista ousou representar a total nudez de Jesus na cruz. Nas primeiras representações artísticas importantes que temos, Jesus e os dois ladrões usam o “subligaculum”.
Após ter defendido, durante algum tempo, a tese de que Jesus foi crucificado vestido do “subligaculum”, não pude deixar de considerar a opinião de todos os antigos escritores da Igreja. Todos falam de “nudus, nudita, gymnos, gymnesthai – nu, nudez, nu, ser desnudado”. O grande pregador João Crisóstomo, por exemplo, escreve: “Ele foi conduzido nu à morte – epi to pathos egeto gymnos”, e “eistekeigymnos eis meso ton ochlon ekeinos – ficou nu no meio daquela multidão”. Encontrei também um texto de Efrem, o Sírio, (Sermão VI sobre a Semana Santa) em que ele diz que o Sol se escondeu diante da nudez de Jesus. Em outra passagem escreve ele: “A luz dos astros se obscureceu porque fora completamente despido Aquele que veste todas as coisas”. Eis aqui, finalmente, uma afirmação ainda mais conclusiva de João Crisóstomo. Ele diz que Jesus, antes de subir à cruz, despojou-se do velho homem tão facilmente como de suas vestimentas, e acrescenta: “Agora está ungido como os atletas que vão entrar no estádio” (Homilia sobre a Epístola aos Colossenses). Ora, toda escultura grega nos mostra esses atletas completamente nus.
 
Pierre Barbet

Nenhum comentário:

Postar um comentário