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sábado, 26 de maio de 2012

O Julgamento, a Condenação e a Crucificação de Jesus em Documentos Antigos



                      A Condenação
Para Jesus ser condenado era necessário um motivo que caísse sob a legislação romana. Em Jerusalém, só Pilatos possuía o jus gladii, isto é, o direito de vida e de morte, e os judeus, se bem que amargamente, reconheciam isso. Os motivos de ódio dos sinedritas não podiam, portanto, ser apresentados perante um funcionário romano. É por isso que, logo de início, acusaram Jesus de levar o povo à revolta. Mas foi suficiente uma curta investigação, confirmada pela indiferença de Herodes, para destruir, no espírito de Pilatos, esse pretexto de acusação. Por isso ele repetiu três vezes: “Nada achei contra ele para condena-lo à morte” (Lc 23.22).
Os judeus então alegaram que Ele afirmava ser Filho de Deus, o que, segundo a lei judaica, implicava em pena de morte. Isto, porém, também não abalou o procurador. Antes, pelo contrário inquietou vagamente sua alma supersticiosa, pois para um pagão, “filho de Deus” é sinônimo de “herói”. É evidente que Pilatos fez todos os esforços para libertar aquele homem manifestamente inocente e que lhe impunha respeito.
Não foi senão após numerosos giros e tentativas que os judeus acabaram finalmente por encontrar o motivo que forçaria Pilatos a condená-lo: “Ele se fez rei, e se tu o libertares, não és amigo de César”. Astúcia verdadeiramente satânica, porque além de incluir um capítulo de acusação regular de bastante gravidade, a “rebelião contra César”, veio perturbar profundamente a inquietude egoísta de um pobre funcionário colonial, que temia desgostar o governo central e mesmo vir a ser incluído em tentativa subversiva contra o imperador.
Desse momento em diante, todas as intenções de benevolência, todos os cuidados de justiça, que eram motivo para muito se admirar em um bruto romano, tudo se volatilizou perante objeto de acusação tão grave e singularmente comprometedor. A partir desse momento, a condenação foi automática e a aplicação da lei exigiu a morte por crucificação: rebelião contra César.
O procurador vingar-se-á dos judeus escrevendo sobre o “títulus”: “Jesus nazareno, rei dos judeus”, e mantendo a inscrição, apesar de todas as reclamações. “O que escrevi, escrevi” (Jo 19.22), palavras que são a evidente expressão de seu ressentimento e mau humor. 

                         O Açoitamento
Trata-se agora de saber se esse chi­co­teamento foi aquele que todo condenado à morte recebia, ou se foi realizado como um suplício à parte. Mateus e Marcos não nos fornecem elementos para resolvermos esse problema, porque escreveram simplesmente: “Após ter mandado açoitar a Jesus, entregou-o para ser crucificado” (Mt 27.26; Mc 15.15). É um simples enunciado da sucessão dos acontecimentos, e era o que acontecia em todas as condenações à morte.
Já em Lucas, vemos que Pilatos repete duas vezes aos judeus: “Depois de castigá-lo, o soltarei” (Lc 22.16,22). Disto conclui-se que sua intenção de mandar chicotear Jesus era por que Pilatos considerava o chicoteamento uma punição em si mesma. Mas Lucas não deixa claro que Pilatos tenha realmente mandado chicotear Jesus. É só no evan­ge­lis­ta João, que sempre fazia questão de deixar tudo bem esclarecido, que encontramos a conclusão desse assunto: “Então Pilatos tomou a Jesus e mandou açoitá-lo” (João 19,1). Como se vê, o açoitamento veio antes da sentença de morte. Não era, portanto, a flagelação preparatória, legal. Mas o resultado não era diferente.

                  A Coroação de Espinhos
Já falamos sobre o costume de submeter o condenado a todas as espécies de zombarias e maus tratos. Com relação a Jesus, havia um detalhe que iria aguçar a perversidade dos carrascos: ele era acusado de ter-se declarado rei dos judeus, acusação esta que logo em seguida iria resultar em sua condenação à morte. É certo que tal título de realeza judaica devia parecer aos legionários do Império imensa palhaçada, e era natural que lhes acorresse logo a idéia de aproveitar a oportunidade para fazer deste título uma cruel zombaria. Daí a coroa de espinhos, a velha clâmide como manto de púrpura, e um caniço como cetro.
Filon nos descreve um outro exemplo (in Flaccum) deste profundo desprezo dos romanos pela realeza judaica. Poucos anos após a morte de Jesus, estando o rei Agripa de passagem por Alexandria, a população, que não gostava dele, se apoderou de um pobre coitado, e colocou-lhe na cabeça um fundo de cesta à maneira de diadema, envolveu-o com uma esteira, pôs-lhe na mão um caniço, deu-lhe guardas pessoais cheios de ironia, e cercou esse rei de honrarias ridículas. A palhaçada assim improvisada tinha a intenção manifesta de ser um insulto à realeza judaica de Agripa.
Tornaremos a examinar os detalhes da coroação de Jesus ao estudarmos as chagas que dela resultaram.

                    O Transporte da Cruz
Jesus, condenado por um romano a ser crucificado, só carregou, conforme a lei romana, o patíbulo e não a cruz inteira, como erradamente o representa a maior parte dos artistas.
Será que esse patíbulo estava amarrado com cordas aos dois braços estendidos de Jesus, como era o costume em Roma, ou Ele o levou livremente sobre os ombros? O episódio de Simão Cirineu parece indicar que Jesus estava conduzindo o patíbulo livremente, sem cordas. De acordo com os outros evangelistas, Jesus levou pessoalmente sua cruz.
Depois os soldados percebendo que Ele não conseguiria chegar dessa forma ao Calvário, obrigaram um homem de Cirene a carregar a haste horizontal, ou o patíbulo. Isto parece indicar, sem grande certeza, porém, que o patíbulo estava livre sobre seus ombros. Lucas diz que puseram a cruz sobre os ombros de Simão “para que ele a levasse atrás de Jesus” (Lc 23.26), o que quer dizer que Jesus caminhava na frente, conduzido pelos soldados, e Simão o seguia, carregando sozinho o patíbulo. Estamos bem longe, portanto, de alguns quadros em que Jesus aparece carregando imensa cruz, da qual Simão apenas ergue a extremidade inferior da haste vertical, atrás de Jesus. Isso não passa de pura imaginação de artista.
A fricção da trave resvalando sobre as costas, sempre que Jesus caía sob o peso da cruz, ia esfolando mais e mais uma região que já fora duramente castigada pelo açoite com pedacinhos de osso e rodelas de ferro nas pontas.
Jesus também não foi submetido ao costume romano segundo o qual os condenados caminhavam para o suplício completamente nus. “Depois de zombarem dele, despiram-lhe a púrpura, e o vestiram com suas próprias vestes: então o levaram para fora, a fim de o crucificarem” (Mc 15.20). Essa exceção é explicada facilmente pelo hábito que os romanos tinham de respeitar os costumes dos povos dominados por ele. Flávio Josefo comenta (Contra Ápiom): “Os romanos não forçam os povos submetidos a transgredirem as leis desses povos”.
Acrescentemos ainda que costumavam amarrar os braços do condenado ao patíbulo com o objetivo primordial de evitar toda e qualquer reação violenta deste, pois ele, já que havia sido condenado à morte, estava disposto a tudo, tornando-se, portanto, perigoso.
Quanto ao réu especial que era Jesus, os soldados logo perceberam que Ele era totalmente inofensivo, tanto por sua serena mansidão manifesta durante todo o processo, quanto pelo estado de fraqueza a que deveria estar reduzido após o tratamento a que fora submetido durante a flagelação. Para eles o único problema era o de conduzi-lo vivo até o Calvário.  
cont... 
 Pierre Barbet
              



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