mulher.

.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

A Crucificação em Documentos da Antigüidade


Antes de estudarmos todos os detalhes da crucificação de nosso Senhor Jesus Cristo, vejamos o que a arqueologia, a literatura e as artes antigas têm a nos ensinar sobre este tema.
Os gregos demonstravam verdadeiro pavor à crucificação, e por isso não a adotaram como forma de execução de seus criminosos. Ela só passou a fazer parte dos costumes gregos no tempo de Alexandre, o Grande, que a imitou dos persas. Foi praticada na Síria, sob os selêucidas, e no Egito sob o governo dos ptolomeus. Em Siracusa, cidade grega, Dionísio, o tirano, praticou-a inspirado pelos cartagineses.
Os romanos também a adotaram observando o exemplo dos cartagineses. Essa prática, que começou a ser usada em Roma como punição aos escravos, passou a ser aplicada também aos prisioneiros de guerra, aos desertores, aos ladrões, e sobretudo aos revoltosos vencidos. Tempos de­pois passou a ser muito explorada no país dos israelitas. Herodes, o Grande, mandou crucificar 2.000 judeus que se rebelaram contra ele, e durante o cerco de Jerusalém, em 70 d. C., os romanos chegaram a crucificar 500 judeus por dia, segundo testemunho do historiador judeu e um dos comandantes das tropas judaicas rebeladas, Flávio Josefo.
Em tempo de paz, a crucificação era primordialmente o suplício usado contra os escravos. São numerosos os autores romanos que dão testemunho disto, como Tito Lívio, Cícero, Tácito, e outros. As comédias de Plauto em que aparecem tantos escravos, estão cheias de alusões bem diretas ao que os escravos consideravam, sem ilusões, seu fim natural: “Meu pai, meu avô, meu bisavô, meu trisavô, terminaram sua carreira crucificados”.
No começo, a cruz estava reservada a revoltas coletivas, como a que foi liderada pelo gladiador Spartacus, da qual sabemos que, após sua repressão, 6.000 cruzes ocupadas com os corpos dos revoltosos foram erguidas como balizas na estrada de Cápua a Roma. Mais tarde, os donos de escravos receberam o direito de decidir sobre a vida e a morte destes, sem apelação. Os escravos eram considerados animais.
Se esta situação foi, no início, motivada pela fuga dos infelizes escravos ou por outra falta grave, em breve as mais leves razões acabaram por ser consideradas suficientes para crucificá-los. Lembremos que, de acordo com um antigo e detestável costume, quando um senhor era assassinado e não se conseguia descobrir o criminoso, todos os escravos da casa eram crucificados.
Os próprios cidadãos romanos podiam ser crucifi­ca­dos. O grande senador e príncipe dos oradores romanos Marcos Túlio Cícero censurou veementemente essa atrocidade. Toda uma série de textos mostra que os romanos também eram curcificados regularmente, porém se tratava em geral de cidadãos humildes, libertos ou provincianos. Os famosos ataques de Cícero contra essa prática pretendiam isentar definitivamente o cidadão romano desse suplício.

Instrumentos da Crucificação
Em geral, a cruz era formada por duas peças distintas. Uma das peças, a vertical, que ficava enterrada permanentemente como um poste fixo, era o stipes crucis – “o tronco da cruz”. A outra, a parte móvel que se fixava horizontalmente sobre a primeira, se chamava patibulum.

1.  O stipes crucis. Digamos em português: o tronco da cruz, porque “stipes” quer dizer tronco de árvore, estaca pontiaguda. Era a parte a que, primitivamente, se dava o nome de “cruz”. A “crux” (“cruz” em latim, “stauros” em grego), não é outra coisa senão uma estaca fixada verticalmente no chão. Alguns autores usaram as palavras “stauros” e “skolops” com o mesmo sentido, e empregaram o verbo “anaskolopizein” (empalar) para se referir à crucificação de Jesus e de Pedro.

O significado da palavra “crux” estendeu-se, em seguida, ao conjunto dos dois paus ajustados um ao outro, tal como o concebemos hoje em dia, na forma de +. A cruz na qual André foi crucificado, em forma de x, não era conhecida pelos autores antigos. A primeira menção que dela se faz é do século X, e a primeira imagem do século XVI.
Qual era a altura do “stipes” (tronco)? O pesquisador Holzmeister distingue a “cruz humilis”, que era curta, da “cruz sublimis”, que era comprida. Todas as citações históricas sobre a “cruz sublimis” mostram claramente que ela era reservada a personagens que os crucificadores queriam colocar em evidência.
Porém, a maioria das cruzes era baixa, “humilis”. Isto permitia aos animais ferozes lançados na arena despedaçarem, à vontade, os crucificados. Segundo informação do escritor romano Horácio, nas encostas do monte Esquilino, em Roma, havia uma floresta permanente de “stipites” onde os condenados eram crucificados. À noite os lobos saíam de seus esconderijos nesse monte para devorar as pessoas cru­ci­ficadas.
Suetônio conservou-nos um dos ignóbeis traços de Nero ao dizer que ele se disfarçava com uma pele de algum animal feroz na arena para satisfazer seu instinto sádico.
Consideremos também que usavam-se cruzes baixas na intenção de simplificar bastante a crucificação para os carrascos, principalmente quando os condenados eram numerosos. Sendo um suplício cotidiano, procurava-se sempre a comodidade para aqueles cuja profissão era crucificar as pessoas.

2.  O patibulum-furca. O pau horizontal apresenta, pelo menos em Roma, uma origem bastante curiosa. Era inicialmente uma “furca”, ou seja, uma peça de madeira em forma de V de cabeça para baixo, sobre a qual, nas paradas à beira das estradas, se descansava a lança dos carros de duas rodas. Quando queriam punir um escravo, colocavam-lhe a “furca” (= forcado) montada na nuca, prendiam-lhe as mãos às duas hastes e faziam-no passear pelas ruas obrigando-o a proclamar o que ele havia cometido. O comediógrafo Plauto, em sua peça “Mostellaria”, verso 56, diz: “Assim carregando o patíbulo, levar-te-ão pelas ruas, com aguilhoadas”.

Bem cedo essa caminhada expiatória passou a ser acompanhada pela desnudação e pelo açoitamento do condenado durante todo trajeto a que ele era obrigado a percorrer. Depois, para maior comodidade dos que açoitavam, aboliram a caminhada e passaram a enganchar a “furca” em uma estaca vertical fixa, o que permitia que o condenado fosse açoitado até a morte. O dramaturgo romano Plauto escreve em uma de suas peças: “Permito que me faças açoitar pendente na cruz” (Casina, verso 1003), e “Será carcomido de açoites, enquanto pendurado (na cruz)” (Mostellaria, verso 1167).
Mas, como nem sempre se tinha à mão uma “furca”, passou-se a usar um pedaço de pau comprido que servia para trancar as portas, e que se chamava “patibulum” (de “patere” = estar aberto, ao qual damos o nome de “tranca”). Foi assim que a parte horizontal da cruz, que em breve deixou de ser uma tranca tirada de alguma porta, tornou-se um pau retilíneo, levado pelo condenado, do tribunal ao campo dos “stipites”. Ele o carregava, geralmente, sobre a nuca, tendo os dois membros superiores estendidos e amarrados sobre ela de modo a ficar, desta forma, também impedido de atacar quem quer que fosse. Compreende-se agora o porquê da sentença condenatória: “Põe a cruz sobre o escravo”. Tertuliano compara este patíbulo à grande verga dos mastros dos navios romanos.
Sob o reinado de Constantino, quando a crucificação foi abolida, surgiu outra “furca”. Era uma estaca bastante alta, terminada em forquilha, em formato de Y. Nela o condenado era enganchado pelo pescoço (a cabeça o impedia de cair), e desta forma morria rapidamente, por estrangulamento. Porém, esse novo método de execução de condenados nada mais tinha em comum com a lenta morte de cruz. 

3.  A união dos dois paus. Os dois paus (o vertical e o horizontal) ficavam habitualmente separados. Como então o patíbulo era fixado sobre a haste vertical, o “stipes”? Isto podia ser feito de duas maneiras: ou fixando, através de pregos ou cordas, o patíbulo sobre uma das faces da estaca, ou apoiando-o sobre a extremidade da estaca. Ou fazia-se uma cruz (+) ou um T.

Quase todos os arqueólogos modernos afirmam que a cruz romana era em forma de T. Na arte cristã ela pode ser vista em todas as épocas sob as duas formas, se bem que o T pareça mais antigo. Era muito mais fácil a um carpinteiro preparar um T. Para isto bastaria ele cavar na madeira uma concavidade de encaixe no meio do patíbulo (o pau horizontal) e encaixar a extremidade da haste vertical nessa concavidade. Com uma cruz média de dois metros, no máximo, o encaixe poderia ser feito facilmente erguendo-se o patíbulo com os braços, sem necessidade de escadas ou suporte.

4.  O sedile. Em alguns casos os crucificadores fixavam no “stipes”, em sua parte média, uma espécie de haste horizontal, de madeira, que passava por entre as coxas do crucificado e lhe sustentava o períneo. Justino, o Mártir, falou sobre a “madeira da cruz, que está fixada no meio, sobres­saindo-se como um chifre, sobre a qual se assentam os cru­­­­­­ci­ficados”. Irineu disse que a cruz tinha cinco extremidades, e sobre a 5ª “descansava” o crucificado. Tertuliano também fala (Contra Márcion) do “sedilis excessus”, que lembra o chifre do rinoceronte. “Sedile“ quer dizer simplesmente um assento qualquer, e é provavelmente por causa destas passagens que os autores modernos chamam à haste perineal de “sedile”. 

Porém, ao estudarmos a causa mortis na crucificação, ve­remos que este apoio era destinado a prolongar consideravelmente a agonia do crucificado por diminuir a tração sobre as mãos, causa de tetania e asfixia. É mais provável que as cruzes não o tivessem, e que só fosse acrescentado quando se desejava prolongar o suplício. Compreende-se facilmente que quando era necessário fabricar centenas de cruzes, os carpinteiros não buscavam complicar muito as peças de madeira que a justiça lhes encomendava com um trabalho suplementar que sabiam ser perfeitamente inútil.
Veremos, além disto, ao estudarmos as chagas das mãos, (capítulo 5), as razões por que estou convencido da ausência deste suporte na cruz de Jesus. Aliás isto explica, ao menos em parte, a brevidade de sua agonia. Além do mais o sedile não foi representado pelos mais antigos artistas, pintores ou escultores que trabalharam o tema da crucificação do nosso Salvador. É verdade que tal fato não constitui argumento contra sua existência histórica, mas tenho certeza científica que ele não foi usado na cruz do nosso Senhor Jesus Cristo.

5.  O suppedanaeum. Em compensação, os artistas têm representado, com grande frequência, o supedâneo. Era uma espécie de pequeno degrau, e supostamente per­mitiu que Jesus apoiasse a ponta dos pés crucificados sobre ele. Encontramo-lo mencionado pela primeira vez em Gregório de Tours (século VI) em seu livro “De Gloria Martirii” [A glória do martírio]. Quando estudarmos a crucificação dos pés (capítulo 6), veremos como nasceu e se desenvolveu esta pura imaginação de artista.

6.  Os instrumentos de fixação – Os cravos nas mãos e nos pés eram a maneira habitual, essencial de fixação à cruz, quaisquer que fossem os motivos da condenação e a situação social do condenado. Tanto eram pregados os escravos como as pessoas livres, os judeus ou os romanos.

O erro que atribui a Jesus o monopólio dos cravos deve-se a uma frase de Tertuliano (Contra Márcion): “Somente Ele foi crucificado de modo tão especial”. Tão somente por causa de Tertuliano a iconografia cristã passou a representar Jesus pregado à cruz entre dois ladrões amarrados.
Realmente os dois modos de fixação (cravos e cordas) estiveram em uso, desde o começo, entre os romanos. Mas eram empregados em ocasiões diferentes, nunca combinados durante uma mesma execução de condenados. E nenhum texto insinua ou permite crer que os dois métodos tenham sido empregados simultaneamente sobre o mesmo crucificado. Os peritos sabiam perfeitamente que três cravos, quatro no máximo, eram mais que suficiente para executar uma crucificação rápida e sólida. O que passava disso era pura imaginação.
Creio que os cravos eram empregados com muito maior frequência. Em numerosos textos, não somente os cravos são formalmente citados, mas também fazem-se menção dos fluxos de sangue que manavam dos ferimentos dos que eram cravados na cruz. O romancista romano Apuleio cita no seu livro O Asno de Ouro: “Estas bruxas vão recolher o sangue de assassinos aderentes à cruz, para com ele exercer sua vergonhosa magia”. O termo técnico, que em grego designa com maior frequência a crucificação, é “proselosis”, do verbo “pros-helõ”, ou seu sinônimo “kathelosis”, do verbo “kathelõ”, e ambos significam “cravar”, “pregar”. E os dois têm por raiz o substantivo “helos”, que quer dizer “cravo” ou “prego”.

Modalidades da Crucificação
Tudo indica que a crucificação estava fixada em suas minúcias por uma série de leis e regulamentos internos, o que, no entanto, não impedia que houvesse sempre por parte dos carrascos uma certa fantasia sádica.

1.  Flagelação preliminar. Não estamos falando aqui do açoitamento que era mandado aplicar como castigo ou tortura em si, nem mesmo como um modo de matar os condenados, e sim tão somente do açoitamento que era o preâmbulo de toda e qualquer execução capital. Todo condenado à morte devia ser, por lei, açoitado preliminarmente, quer fosse a execução feita pela cru­cificação, ou por decapitação ou pelo fogo. Dela somente estavam isentos, segundo o historiador Theodor Mommsem, os senadores, os soldados e as mulheres que gozassem do direito de cidadania.

Entretanto, nos casos de decapitação, não se aplicava o chicoteamento propriamente dito, e sim a fustigação, que se fazia com varas.
A flagelação, que primitivamente era aplicada quando o condenado já estava sobre a cruz, passou, com o tempo, a ser aplicada no próprio local do tribunal. O condenado era ali atado a uma coluna (provavelmente com as mãos amarradas por sobre a cabeça, pois esta era a melhor maneira de imobiliza-lo, pois ele, que só podia repousar sobre as pontas dos pés). Encontramos em Plauto esta referência: “Levai-o para dentro e amarrai-o solidamente à coluna” (Bacchides).
Despiam o condenado antes de o açoitarem. Que instrumento era usado na flagelação? O “flagrum”, instrumento especificamente romano. Era o que nós conhecemos hoje como açoite ou chicote. Compunha-se de um cabo curto ao qual estavam fixadas grossas e compridas tiras de couro cru, geralmente duas. Na extremidade dos chicotes estavam inseridas pequenas esferas de chumbo ou ossos de carneiro.
As correias iniciavam a inchação e os primeiros cortes na pele, enquanto as pequenas esferas e os ossinhos impri­miam profundas contusões. A consequência disto era uma hemorragia nada desprezível e um enfraquecimento considerável da resistência do condenado.
O número de golpes com o açoite era, segundo a lei judaica, rigorosamente limitado a 40. Mas os fariseus, gente escrupulosa, para ter absoluta certeza de não ultrapassar o número, exigiam que se contasse “40 menos 1”, isto é, 39. Entre os romanos, a lei não conhecia outro limite senão a necessidade de não matar o condenado sob os golpes. Era ainda necessário que ele ficasse com forças suficientes para carregar seu patíbulo, e que morresse sobre a cruz. Ele era, às vezes, como diz Horácio “dilacerado pelos açoites... até enfastiar o carrasco”. (Épodo IV).

2.  O carregamento da cruz. Portanto, o condenado, prévia e devidamente flagelado, percorria a pé, despojado de todas ou de quase todas as suas roupas, e carregando o seu patíbulo, o trajeto do tribunal ao local do suplício, onde o estava esperando seu “stipes” (a haste vertical da cruz) no meio de verdadeira floresta de outros semelhantes.

A expressão “carregar a cruz” (em grego “stauron basta­zein”) só se encontra nos textos gregos ou rabínicos (em Plutarco, Artemidore, Chariton, nos comentários judaicos do Gênesis, e no Novo Testamento, entre outras fontes). Em latim, só é encontrada nas versões latinas da Bíblia. E como já vimos, é por sinédoque que a palavra cruz designa a parte horizontal desta.
O patíbulo era colocado sobre as costas e braços do condenado estendidos transversalmente, e em seguida amarrado nas mãos, braços e peito. Era, portanto, só o patíbulo que o condenado carregava. Como sempre, o dramaturgo romano Plauto, entre outros textos que poderíamos citar, resume tudo isto com uma frase: “Que leve o patíbulo pela cidade, depois será cravado na cruz”. (Carbonária).
A haste vertical da cruz (o “stipes crucis”), pelo contrário, esperava o condenado no lugar do suplício. Cícero criticou Labieno que “no campo de Marte... mandou fincar e estabelecer a cruz para o suplício dos cidadãos” (Em defesa de Rabínio). Esta expressão “mandou fincar e estabelecer“, pode ser melhor traduzida como “mandou colocar permanentemente”. Políbio cita o caso de um crucificado, em Cartago, que foi enganchado a uma cruz que já tinha um outro corpo.
Em Roma, o Montfaucon era representado pelos campos Esquilíneos, tornados célebres por Horácio, e onde se elevava, segundo Saglio (Dict. Daremberg) uma verdadeira floresta de cruzes, um bosque de “stipites”. Estava fora da Porta Esquilínea. Para os que conhecem Roma, ficava pouco mais ou menos na “Piazza Vittorio Emanuele”, um pouco além de Santa Maria Maior, para quem vem do centro.
Outro detalhe confirma o fato de que o condenado só carregava o patíbulo. O patíbulo sozinho devia pesar cerca de 50 quilos, e a cruz inteira devia ultrapassar os 100 quilos. Carregar o patíbulo não deixava de ser uma prova bem rude para um homem que acabara de sofrer severa flagelação e, consequentemente, perdera boa parte de seu sangue e de suas forças. Como poderia então ele carregar a cruz inteira, que pesava mais de 100 quilos? Pois não se fala nunca em arrastá-la. Todos os textos trazem o termo bastazein, “carregar”, e nunca thahere, “arrastar”.
Outro detalhe: À frente daquele que carregava a cruz ia alguém carregando o titulus, um pedaço de madeira sobre o qual estava escrito o nome do réu e o crime pelo qual ele fora condenado. Às vezes o próprio condenado levava esse titulus pendurado no pescoço. Depois, ele era fixado no alto da cruz.

3.  Modo da crucificação. Tudo o que acabamos de dizer sobre o fato de o condenado carregar somente o patíbulo, e depois este ser fixado sobre a haste vertical no local do suplício, supõe aquele modo que com tanta concisão e clareza expressou Firmicus Maternus: “O réu, pregado ao patíbulo, é içado para cima da cruz”. Quando a crucificação era feita com cordas, bastava enganchar o patíbulo sobre o qual o réu tinha sido amarrado, e em seguida prender-lhe os pés à haste vertical com algumas laçadas de corda. Mas quando a crucificação era feita com cravos, era necessário desamarrar o condenado e deitá-lo por terra com as costas sobre o patíbulo, puxar-lhe as mãos e cravá-las sobre as extremidades do patíbulo. Depois então é que ele era levantado já pregado no patíbulo, e este era enganchado no alto do “stipes” (ou haste vertical). Isto feito, nada mais restava senão pregar-lhe os pés diretamente sobre o “stipes”.

Esse soerguimento era feito com certa facilidade, sobretudo quando a cruz não ultrapassava os dois metros. Quatro homens podiam com facilidade soerguer nas mãos o patíbulo e o condenado, que deviam pesar no máximo uns 130 quilos. Podiam também fazer o condenado subir de costas uma pequena escada encostada ao “stipes”. Se a cruz fosse mais alta, deveriam então servir-se de forquilhas para erguer o patíbulo, ou de duas escadas maiores encostadas lateralmente ao “stipes”. De qualquer modo, não havia grandes dificuldades a superar.
Esta técnica é, por outro lado, sugerida pelas expressões empregadas para designar a própria crucificação. Todas elas dão a idéia de elevar. Em grego epibainein ton stauron, “subir para a cruz”, e em latim in crucen ascendere, “ser içado à cruz”.
O próprio Jesus descreveu esta técnica quando predisse a morte de Pedro: “Estenderás as mãos e um outro te cingirá e te conduzirá para onde não queres. Jesus disse isso para indicar o tipo de morte com que Pedro iria glorificar a Deus” (Jo 21.18,19) O “estender das mãos” era a aplicação do patíbulo no tribunal, sobre as costas e membros superiores do condenado. Cingiam-no, depois, com uma corda para o conduzir ao lugar do suplício.
Às vezes a fantasia dos carrascos podia variar o modo regular da crucificação. Alguns defumavam os crucificados ou os queimavam. Outros modificavam a posição clássica, pregando-os de cabeça para baixo, como fizeram na Palestina durante o governo do imperador Diocleciano, conforme nos informa Eusébio. Sêneca escreveu: “Vejo cruzes de gêneros diversos, e alguns ali estão pregados de cabeça para baixo”. Segundo informação de Orígenes, Pedro foi assim crucificado.

4.  A guarda militar. Toda execução devia ser feita legalmente com um aparato inteiramente militar, sob as ordens de um centurião, conforme testemunha Sêneca: “O centu­rião arrastava a multidão daqueles que iam perecer”. O exército, que já se havia encarregado da flagelação, fornecia a escolta para conduzir o condenado do tribunal ao lugar do suplício. Era ainda entre os membros dessa escolta que se recrutavam os carrascos para a crucificação. O exército regular também fornecia uma guarda para ficar velando ao pé da cruz. Esses guardas tinham a função de impedir que parentes ou amigos da vítima viessem e a tirassem da cruz. Era necessária, portanto, uma guarda permanente ao pé da cruz até à morte dos condenados. E essa guarda muitas vezes ficava até após a morte do crucificado, segundo o testemunho de Petrônio, “para que não viesse alguém roubar o corpo para sepultá-lo”. O que era feito, pois, dos cadáveres dos crucificados?

5.  Sepultar e não sepultar. Em geral, os cadáveres ficavam na cruz para servir de pasto a aves e animais selvagens. Assim responde Horácio a um escravo inocente: “Tua carne não alimentará na cruz os corvos”. (Ep. I, 26). No seu livro Épodo (Cap. V), o mesmo Horácio escreveu: “Depois teus membros insepultos serão devorados pelos lobos e aves do Esquilínio”. Muitos outros autores comentam o mesmo tema. (Petrônio, Sêneca, Artemídoro, etc).

Porém, os corpos também podiam ser solicitados pelas famílias que quisessem lhes assegurar uma sepultura decente. E parece que a lei facilitava sem dificuldades nem taxas esta última concessão. Qualquer um podia solicitar os cadáveres. Até mesmo as cinzas dos que haviam sido condenados ao fogo (pandectas) podiam ser devolvidas. As provas que temos destas leis de clemência são precisamente os casos em que a autorização gratuita foi recusada, e que são apontados como exceção. Cícero, no seu livro Dos Suplícios, censura veementemente a Verres o fato de este ter pedido muito dinheiro para entregar os corpos de supliciados que suas famílias não queriam ver devorados por animais. Tal extorsão, diz o grande orador, era contrária à lei.
Por outro lado, o juiz podia, uma vez que a autorização dependia dele, recusá-la em certos casos por vários motivos em que geralmente entrava o ódio contra o condenado. Vespasiano acrescentou esta pena suplementar à condenação de alguns revolucionários que pretendiam matar o imperador, e que por isso foram crucificados e tiveram seus corpos atirados aos monturos de lixo, sem direito à sepultura (Suetônio). O imperador Otávio Augusto, após a batalha de Filipos, proibiu o sepultamento de um cativo de certa fama, respondendo aos que vieram lhe pedir para sepultar o morto, que bem cedo isto seria o ofício dos abutres (Suetônio). Semelhantemente Flaccus, prefeito do Egito, no ano 38 da nossa era, não autorizou a sepultura para certos judeus crucificados (Filon, in Flaccum). 

6.  O golpe com a lança. Quintiliano, que é do século I, escreveu: “O carrasco não impedirá que sejam sepultados os que foram feridos”. Esta afirmação introduz aqui uma informação nova, e que interessa diretamente nosso assunto. O que ele queria dizer, na realidade, com esse ferimento? Não se tratava do suplício em si mesmo nem da flagelação, uma vez que estava-se tratando de condenados à morte, e sabe-se que estes já haviam sido flagelados e crucificados.

Tratava-se, portanto, de um golpe especial, posterior ao suplício, e que lembra o que se costuma chamar em nossos dias de “golpe de misericórdia”. É aquele último golpe que se dá na vítima para se ter certeza de que ela está realmente morta. Podemos, pois, com bom fundamento, interpretar a frase de Quintiliano como: “O carrasco permitirá o sepultamento dos supliciados depois que estes tiverem recebido o golpe de misericórdia”. Mas, em que consistiria este golpe de misericórdia regulamentar, indispensável para que o carrasco autorizasse a entregar o corpo à família? Origenes fala claramente (Comentário a Mateus) que era um golpe no coração. Era um golpe que se dava, às vezes, logo depois da crucificação para matar rapidamente o condenado.
Assim, pois, quando a família pedia o cadáver, o carrasco devia antes de tudo ferir o coração do crucificado. Como geralmente o carrasco era um soldado, o golpe devia ser executado com a arma que ele tinha em mão, geralmente uma lança ou um dardo. Este golpe no coração, dado pelo lado direito do peito, era conhecido como infalivelmente mortal pelos soldados dos exércitos romanos. Proporcionava, pois, certeza sobre a morte real do condenado... ou, se fosse o caso, a provocaria.
 
Pierre Barbet

Nenhum comentário:

Postar um comentário